Seus olhos, espelhos de paz, não buscavam promessas nem amores fugidios. Neles, como luzeiros da noite — guardiões do amor entre o Amado e a Amada do Cântico — dançava a cotovia da esperança Se a tivesses visto, irmão, como eu a vi na calma da manhã, louvarias o meu destino por tê-la contemplado ao menos uma vez — ainda que sem merecimento algum.
Seu rosto, alvor da Galileia, resplandecia de uma luz que não pertence a este mundo. Deus me concedeu vê-la em visão do tempo, pouco antes que o mensageiro de pés divinos descesse, trazendo no sopro o perfume da primavera dos céus. Todos ao redor, que a viam apenas como uma menina simples, ignoravam o milagre que nela repousava em silêncio.
Mas agora, em visão, vejo-lhe a fronte coroada com o diadema anterior à queda — ornamento daquela que, um dia, com o seio, nos amamentou com o veneno do pecado. Naquele tempo, seus sonhos eram os da casa e do amor humano: fiava o linho dos dias e esperava o justo José, pois Teus olhos não buscavam falsas promessas: neles dançava a Ave da Esperança divina, o pressentimento do sim que mudaria o mundo. Cada gesto seu, ainda infantil, era já uma prece; cada silêncio, resposta aguardada por séculos e por anjos.
Sob o véu da inocência movia-se o prenúncio de um inverno sem nome — e, por isso mesmo, santificante. Nos órgãos do seu ser germinava o mistério: flor de amor e espinho de dor, brotando do mesmo fruto eterno, destinado a atravessar-lhe a carne e o espírito.
Dormiam em sua pureza sete dores — dores de um parto que antecede o nascimento do Filho do Amor. Filho ainda oculto, como o sol velado pelo eclipse: cercado de treva, mas revelando-se em um halo de fogo em torno da sombra da carne celeste — a lua viva que o oculta e o molda à sua imagem, para que o sol, fogo absurdo, possa ser amado e abraçado pelos olhos dos homens.
E, no tremor da luz em torno de seu corpo sereno, já se pressentia a futura coroa — um ardor invisível, como se o infinito coubesse inteiro em sua mão de menina.
Agora, herdeira desse mesmo fulgor, tornava-se espelho do amor que, ao ser contemplado, não apenas se vê — ama-se. Pois nela, o espaço diminuto do ventre transformava-se em abrigo do Infinito; e o céu, ansioso por nascer, encontrava forma em sua humildade.
Naquela aurora suspensa, toda a história cabia: o firmamento se inclinava sobre ela, o lume peregrino do sol recolhia-se no ventre da lua, e o milagre de conter o impossível tornava-se visível naquela jovem de passos leves, correndo entre fontes e vinhedos, ouvindo o silêncio dizer segredos.
O céu, tão próximo e tão sereno, refletia o sonho de um amor ainda terreno — e, por isso mesmo, santo, porque fiel.
Ali, onde morava, antes mesmo que a voz celeste se fizesse ouvir, Deus já habitava a brisa que tocava seus cabelos castanhos.
O pó que se prendia a seus pés sabia — em breve — que o Verbo nasceria. E, sonhando esse casamento divino, voltando a ser menina, perguntava-se: como conter em si o Criador? como poderia a lua acolher o sol num eclipse?
A resposta já se insinuava no perfume que exalava de sua boca — fragrância do fruto que crescia em seu ventre, onde mora a doçura que consola e salva, onde o Verbo em flor murmura o canto eterno.
Em seus olhos castanhos, cheios de mocidade, ardiam clarões de profecia como se Deus já se preparasse para ser menino, brincando nas travessuras e nos sorrisos da futura Mãe.
E foi isso que o anjo viu. O mensageiro de pés divinos, descido do alto, contemplou nela o espaço inteiro preparado desde a origem.
Maria, menina simples da Galileia, era o altar vivo do milagre.
E o coro celeste, em silêncio de espanto, inclinou-se através dos olhos de Gabriel, pois naquele olhar humano o céu encontrou morada. Naquele instante, o anjo pressentiu o “sim” antes mesmo que fosse dito — escondido no leve sorriso que nascia no canto da boca da menina, sorriso de quem ainda brinca e já consente no mistério. Sabia que precisaria da pergunta, mas via em seu seio — outrora sinal do veneno herdado de Eva — o prenúncio do Menino do Mistério.
E esse Menino, ao alimentar-se como todo homem, faria do leite de Maria o antídoto do antigo veneno, convertendo em graça o que antes fora queda.
Desde então, o corpo do homem e da mulher tornou-se templo onde Deus dorme como criança e desperta como amor.
Porque Maria aceitou nutrir o Deus-homem, cada curva do corpo feminino deixou de ser trilha da perdição e se tornou senda de amor infinito.
O que antes era ânsia e desvario tornou-se paz — materna, esponsal, divina.
No gesto de mãe e filho, carne e espírito se reconciliam.
Maria e Cristo-homem tornaram-se aurora pura, onde o humano e o divino se encontram.
Maria — menina e mãe, carne e espírito transfigurados — és a nova Eva, em quem a humanidade se refaz e, em Deus, se consome como chama viva.
PROFESSOR EDUARDO FARIA



