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São José, Madeira que Aprende a Florir

24 de fevereiro de 2026

Tantas vezes eu via as estrelas perpétuas em sua frieza firme, fincadas no escuro do céu como frios cravos de gelo na carne da noite, antigas e austeras, alheias ao pó das vias e das vidas, feitas do mesmo pó que piso e respiro. Até que teus olhos, Maria, se erguiam lentamente ao encontro delas e as estrelas começavam a arder não por força própria, mas como quem descobre o fogo ao beijar teus olhos em silêncio e deixando que esse beijo as transformasse de gelo em brasa, de distância en anúncio.

Eu percebia, sem compreender inteiramente, que não era o céu que descia até nós, mas que algo em ti o fazia inclinar-se, como uma ramagem se curva ao vento invisível, e nesse instante eu já não via apenas pontos de luz espalhados na altura, mas um coro suspenso aprendendo a amar, cada estrela tendo em teu olhar seu encontro secreto com o fogo. E eu, homem simples entre madeira e ferramentas, sentia o universo inteiro curvar-se a esse encontro; a noite abandonava sua indiferença e vestia-se de espera, despia-se do frio e inflamava-se em gestação, e o brilho sobre esta via e esta vida pulsava como carne viva do céu, repetindo em silêncio o mistério que crescia em teu corpo cansado, que sustento com mãos que tremem mais de reverência do que do cansaço que tanto tento ocultar de ti, ó doce esposa minha.

E enquanto te observo, vejo uma rainha improvável aos olhos do mundo, coroada não por ouro, mas por silêncio. Regada pela chuva dos meus pensamentos e amor, que caem sobre ti como constelações de homem ainda perdido diante do fato de ter sido escolhido como teu protetor e da criança que carregas. E, no entanto, tu te encolhes em meus ombros, tão grande na promessa, tao frágil na estatura. Teu corpo leve repousa sobre mim como se temesses o mundo, e eu sinto meus ombros de homem simples, feitos de madeira e ferramentas gastas, tornarem-se menores que a tua própria estatura paradoxal, pois, apesar de pequena em teus olhos ainda vejo as estrelas a brilharem como nunca brilharam. Há em meu ombro nesse momento um peso que não pesa, uma grandeza absurda que se esconde em tua pequenez.

Tu insistes em ver em mim a força que eu nao conheço; mas te digo, Ó Maria, minha força nasce do mesmo incêndio que toma estas estrelas quando as fitas. Teus olhos me criam da mesma maneira. Neles descubro um homem que não foi ensinado por meu pai, nem moldado pela tradição que exigia de mim um filho de sangue e continuidade. Ofereci-te, por isso, madeira, aspereza, chão; e tu fizeste, sem perceber, ouro do homem que eu era apenas com tua presença e olhar. Transformaste a esta madeira em abrigo, meu silêncio insistente em promessa paternal e esponsal.

Bendito seja o dia em que teu olhar me atravessou como lâmina de luz. Bendito o lugar, a hora, o instante em que compreendi que teus olhos nada prometem e, ainda assim, entregam à humanidade inteira a contemplação da beleza das belezas que as estrelas ansiosas foram beijar em teus olhos. Há neles uma claridade que não possui, mas fecunda; que não exige, mas transforma.

Meu pai esperava que eu cumprisse o destino comum dos homens, que tocasse a vida com a naturalidade do sangue, que o sangue chamasse o sangue e que minhas mãos conhecessem o corpo como conhecem a madeira, sem espanto, sem tremor, como quem repete um gesto aprendido desde os avós. Era isso que se esperava de mim, que eu fosse continuidade, raiz que se alonga sob a terra, fruto que nasce de outro fruto.

Mas quando me aproximo de ti, Maria, o toque deixa de ser simples e torna-se fronteira. Minhas mãos, acostumadas a medir tábuas e a alisar farpas, hesitam diante do teu silêncio como se diante de uma chama invisível. Como tocar o mistério sem que a pele se transforme em oração? Como pousar os dedos sobre o que já foi tocado por Deus e não sentir que a própria carne precisa aprender outra linguagem? Penso em Moisés segurando a pedra ainda morna do sopro divino, pedra que não era apenas pedra, mas palavra endurecida em fogo, e imagino o peso daquele calor atravessando-lhe os ossos. Assim me sinto ao me aproximar de ti, como se o ar ao teu redor tivesse sido recém-incendiado e eu fosse apenas madeira seca tentando não se consumir.

Teu corpo é delicado como o arco de uma andorinha no mergulho e, no entanto, carrega uma grandeza que emoldura o céu e  me desarma. Piso perto de ti como quem pisa em terra recém-chovida, temendo que a marca do meu pé seja excesso, que a minha sombra seja rude demais para a claridade que te envolve.

Por isso te vejo senhora do universo não pelo domínio, mas pela entrega. E a partir de hoje te trarei das montanhas flores selvagens, alegres e indomadas, colhidas com os beijos do meu coração recém-nascido. Amar-te-ei como a primavera ama as figueiras e as tamareiras, sem tocá-las, mas cobrindo-as de flores, apenas preparando o fruto, pois, assim como eu, a primavera não gera o fruto, apenas o anuncia com cores e perfumes.

Professor Eduardo Faria