Ao ler mais sobre a vida de São José de Cupertino, tornou-se impossível ignorar um aspecto profundamente desconcertante que atravessa a história de muitos santos. O que inquieta não são apenas as perseguições externas que enfrentaram, mas, sobretudo, aquilo que suas vidas revelam acerca dos mecanismos internos de convivência entre os próprios irmãos na fé, enfim, mecanismos que, em diversos casos, se mostram no mínimo perturbadores. O que se percebe são dinâmicas que atravessam os séculos e que, paradoxalmente, os católicos contemporâneos tendem a considerar irreplicáveis, como se a mera distância histórica fosse suficiente para assegurar uma superioridade moral. Tal convicção, característica do espírito moderno, opera como um verdadeiro Zeitgeist: a crença absoluta de que hoje somos mais lúcidos do que aqueles que nos antecederam, quando, na realidade, apenas substituímos a linguagem com a qual continuamos a legitimar gestos essencialmente semelhantes.
Para exemplificar, o caso de José de Cupertino, que em muitos aspectos ecoa o de São João da Cruz, é exemplar nesse sentido: não por razões idênticas, mas porque ambos foram atingidos pela mesma lógica silenciosa que, em nome da ordem e da prudência, soube reconhecer a santidade apenas quando já havia causado sofrimento. São José de Cupertino, por exemplo, não foi isolado por erro doutrinal nem por suspeita de fraude; ao contrário, suas levitações eram consideradas autênticas e amplamente testemunhadas, a ponto de se registrarem dezenas de ocorrências públicas, na ordem casa de setenta ocorrências documentadas. Justamente por serem reais, frequentes e impossíveis de controlar, essas manifestações passaram a causar inquietação e a perturbar a ordem social e religiosa.
Diante desse cenário, a opção do clero da época não foi a de negar o fenômeno, cuja autenticidade era amplamente reconhecida, mas a de contê-lo, o que se traduziu concretamente no afastamento de José do convívio público e em seu confinamento em lugares remotos, sob o argumento de preservar a disciplina e evitar aquilo que se percebia como escândalo, ainda que tal decisão pouco ou nada considerasse o impacto humano, espiritual e afetivo que essa medida teria sobre ele e realmente teve como está na história do santo. A essa escolha somava-se, quase inevitavelmente, a antiga e recorrente justificativa que frequentemente serve para aliviar consciências dos responsáveis e diluir responsabilidades, a invocação genérica de que tudo não passava de vontade de Deus. Não se trata aqui de emitir juízo moral sobre as intenções individuais de cada membro do clero da época, mas de reconhecer que os fatos permanecem inalterados independentemente das explicações que se ofereçam para legitimá-los, e que o sofrimento causado não se dissolve pelo simples recurso a fórmulas espirituais. Esse tipo de decisão raramente se apresenta como injustiça. Ao contrário, costuma vir acompanhada de uma retórica tranquilizadora: tudo é feito pelo bem da Igreja, pela unidade, pela prudência, e, por fim, pela vontade de Deus. É aqui que a crítica precisa se tornar explícita; quando a invocação da vontade divina serve para neutralizar a responsabilidade humana e silenciar o sofrimento concreto de um inocente, ela deixa de ser expressão de fé e se converte em instrumento de acomodação moral.
O sofrimento de José foi real, humano e profundo, e não se dissolve pelo simples recurso a explicações espirituais genéricas. É nesse ponto que Dostoiévski se torna inevitável, como está em Irmãos Karamázov, quando Ivan não rejeita Deus por falta de esperança, mas por se recusar a aceitar uma esperança construída sobre o sofrimento dos inocentes. Sua recusa não é niilismo, mas protesto moral: uma esperança que exige o silêncio diante da dor injusta corre o risco de se tornar cumplicidade. Aplicado a esse contexto, isso significa reconhecer que não basta dizer que Deus escreve certo por linhas tortas, se esse discurso serve apenas para justificar decisões humanas que ferem, excluem e esmagam.
Em outras palavras, esse afastamento de São José, como se vê, não foi neutro nem indolor, significou solidão, incompreensão e profundo sofrimento espiritual, vivido em silêncio e obediência, ao ver dons que ele próprio não buscava transformarem-se em motivo de exclusão. Hoje, porém, muitos se limitam a admirar essa história como algo apenas belo ou extraordinário, quase tratando o santo como um “super-homem”, esquecendo que a santidade não consiste em ser mais do que humano, mas justamente em assumir plenamente a própria miséria humana e entregá-la nas mãos de Cristo. Comovem-se ao ouvir a vida de São José de Cupertino, mas ao mesmo tempo temem profundamente qualquer forma, ainda que mínima, de exclusão ou incompreensão por parte dos próprios irmãos.
Com João da Cruz, o cenário muda de forma, mas não de essência. Ele não provoca escândalo pelo extraordinário visível, mas pelo radicalismo interior. Sua reforma espiritual exige conversão, desinstala acomodações e relativiza equilíbrios confortáveis. Por isso, não é afastado pelo mundo, mas preso por irmãos da própria ordem. Não é acusado de heresia, mas de imprudência, rigidez e desobediência. Sua experiência de Deus não é chamada de falsa, apenas de perigosa. O cárcere surge como medida disciplinar, quase pedagógica, para conter aquilo que ultrapassa o administrável. Nos dois casos, ninguém acreditava estar fazendo o mal. O discurso era o da prudência, da ordem, da unidade e da paz social. E é justamente aí que está o ponto mais incômodo. O mal raramente se apresenta como ódio declarado; quase sempre se apresenta como necessidade. Hoje não se isolam santos em celas, mas se marginaliza, se silencia, se descredibiliza em nome do equilíbrio, da sensibilidade pastoral ou da unidade. Mudam as palavras, não a lógica. Por isso, a pergunta que essa reflexão impõe permanece sem resposta confortável. Não se trata de saber se hoje prenderíamos João da Cruz ou isolaríamos José de Cupertino com as mesmas formas externas, mas se reconheceríamos neles um problema, se sentiríamos alívio ao vê-los afastados, se chamaríamos sua presença de “desnecessária”, “desestabilizadora” ou “pouco pastoral”.
A história dos santos não é um arquivo encerrado; ela é um exame de consciência permanente sobre o que se prioriza, a opinião da sociedade ou a de Deus, por isso, como já disse em outro texto, São Francisco era chamado de doidinho de Deus,justamente porque sua fidelidade radical a Cristo o levava, não raras vezes, a assumir posturas que contrariavam frontalmente as convenções sociais de seu tempo. Suas escolhas, incompreensíveis à lógica comum, não derivavam de transgressões gratuitas, mas de uma coerência evangélica tão profunda que acabava por subverter expectativas, escandalizar sensibilidades e expor, por contraste, a fragilidade dos critérios humanos de normalidade e prudência, o que lembra claramente o que Cristo causou de uma perspectiva sociopolítica. O maior valor, portanto, está justamente em nos impedir de acreditar que, colocados nas mesmas circunstâncias, agiríamos automaticamente de modo diferente, já que cuidar do olhar do outro, ainda que católico, se constitui uma primazia em muitos de nós, mais do que gostaríamos.
POR PROFESSOR EDUARDO FARIA



