Você está aqui:

Odisseu e Penélope: uma Imagem do Amor Esponsal

10 de agosto de 2026

Entre as muitas cenas inesquecíveis da Odisseia, uma permanece como um tesouro espiritual que atravessou os séculos até encontrar, no nascimento de Cristo, o Verbo eterno, por meio de quem todas as coisas foram criadas e que se fez homem, a chave de leitura que permite contemplar de modo novo as grandes obras clássicas. Aquilo que nelas aparece como beleza, verdade e desejo humano pode ser reconhecido, à luz da Revelação, como uma semente de verdade que aguardava não apenas uma interpretação, mas o nascimento daquele que é a própria Verdade e em quem todas as coisas encontram sua significação última. O Verbo, ao entrar na história, não destrói aquilo que os antigos poetas contemplaram, mas revela sua profundidade, permitindo-nos retornar às grandes obras do passado e descobrir nelas sentidos que seus próprios autores talvez não pudessem conhecer plenamente. É nesse horizonte que podemos contemplar o reencontro de Odisseu e Penélope, depois de vinte anos de separação, guerras, tempestades e provações, o reconhecimento definitivo não acontece pela força do herói, nem por sua fama, nem por suas cicatrizes. A verdade do retorno e o real valor do matrimônio repousa sobre um leito.

Na cena em questão, Penélope ordena que tragam a cama para fora do quarto e, nesse momento, Odisseu se inquieta, pois isso seria impossível: o leito havia sido construído ao redor do tronco de uma oliveira viva, cujas raízes permaneciam fincadas na terra. Não era simplesmente um móvel, mas parte da própria casa, inseparável de suas raízes. Por isso, deslocá-lo significaria destruí-lo. Naquele instante, então, Penélope reconhece que aquele homem é verdadeiramente seu esposo, pois somente Odisseu conhecia aquele segredo, aquela realidade íntima que pertencia aos dois.

Aqui encontramos uma imagem profundamente humana que, para nós, pode também se tornar profundamente espiritual. O leito não é apenas o lugar da intimidade, mas o lugar da aliança; e sua união com a oliveira torna visível aquilo que o matrimônio cristão revela: o amor verdadeiro precisa criar raízes humanas e espirituais. “Os dois serão uma só carne” (Gn 2,24) não significa que duas pessoas deixem de ser quem são, mas que passam a constituir uma comunhão de pessoas fundada no dom recíproco e na fidelidade, própria do amor esponsal.

A casa de Odisseu, entretanto, havia sido invadida e durante sua ausência, os pretendentes ocuparam o palácio, depredaram seus bens, consumiram seus rebanhos e viveram como se o verdadeiro senhor jamais fosse retornar. Ainda assim, havia algo que eles não podiam possuir: o leito, símbolo desse matrimônio com raízes fortes. Podiam ocupar a casa, mas não podiam ocupar o lugar da aliança; podiam consumir os bens, mas não podiam tocar o segredo que pertencia ao esposo e à esposa.

E o próprio Odisseu precisou escolher entre permanecer numa existência livre do envelhecimento ou retornar para Penélope. Calipso lhe ofereceu a possibilidade de permanecer com ela e escapar da condição mortal, mas Odisseu preferiu Penélope e sua terra natal. Sabia que encontraria sua esposa marcada pelos anos e que ele próprio teria novamente de assumir a condição humana, envelhecer e um dia morrer junto a sua esposa compartilhando o mesmo destino. Mesmo assim, preferiu a mulher mortal à promessa de uma vida sem morte, porque seu desejo não era simplesmente viver para sempre, mas viver fielmente e humanamente o amor que havia recebido. Há algo profundamente belo nisso: Odisseu não quer uma eternidade sem Penélope; ele quer Penélope, mesmo que, para isso, precise aceitar novamente o tempo, o sofrimento e a morte. É justamente nessa escolha que sua humanidade se revela e que nós nos reconhecemos nele: porque também nós descobrimos que não desejamos simplesmente viver para sempre, mas permanecer junto daqueles a quem amamos, mesmo quando o amor nos pede que atravessemos o tempo, o sofrimento e a própria morte.

Os anos envelheceram seus corpos, mas não destruíram o centro da aliança matrimonial, pois o leito permanecia enraizado na oliveira, como se a própria casa testemunhasse que aquilo que possui raízes profundas pode atravessar as tempestades sem perder sua identidade.

A oliveira, por sua vez, oferece uma imagem particularmente fecunda para uma leitura cristã. Sua longevidade e resistência fazem dela uma imagem de permanência diante das adversidades da vida devido à robustez e a profundidade de suas raízes, enquanto o azeite de seus frutos ocupa na Escritura um lugar especial na unção e na consagração, como acontece com Davi, ungido por Samuel por ordem do Senhor (1Sm 16,13). Não precisamos afirmar que Homero tivesse conscientemente diante de si a Teologia do Corpo ou o simbolismo cristão; basta reconhecer que a verdade humana contemplada pelo poeta pode, depois de Cristo, ser recebida pela fé como uma dessas sementes que encontram sua plenitude na Revelação.

São João Paulo II nos ajuda a perceber a profundidade dessa imagem quando ensina que o corpo possui uma linguagem e que, no matrimônio, o homem e a mulher são chamados a expressar por seus próprios corpos uma entrega total, fiel e exclusiva. O leito enraizado na oliveira torna-se, então, uma imagem poderosa: a intimidade dos esposos não está separada da aliança, e a aliança não está separada da fidelidade. O amor não é apenas aquilo que se sente; é aquilo que cria raízes e permanece quando os sentimentos, os anos e as circunstâncias mudam.

Talvez seja justamente isso sobre o matrimônio que nosso tempo tenha esquecido: existe um leito que não pode ser movido, porque o amor esponsal não é uma realidade provisória, mas uma aliança que cria raízes e permanece. Para os esposos, esse leito recorda a fidelidade de uma entrega irrevogável, na qual o corpo se torna linguagem de um amor que se oferece por inteiro; para aqueles chamados à consagração, a mesma lógica do dom encontra sua expressão na entrega irrevogável a Cristo. Em ambos os casos, há uma verdade fundamental: toda vocação verdadeira precisa estar enraizada naquele que chama, pois aquilo que nasce apenas do sentimento pode passar, mas aquilo que nasce de uma aliança permanece.

E tudo isso se abre para um mistério ainda maior, pois a tradição cristã contempla a relação entre Cristo e a Igreja em linguagem nupcial: Cristo é o Esposo que “amou a Igreja e se entregou por ela” (Ef 5,25). Por isso, a Cruz, que também se ergue como uma árvore, pode ser contemplada como o leito nupcial do verdadeiro Esposo, a nova árvore da vida diante da qual se consuma a Nova Aliança: ali Cristo entrega seu Corpo pela Esposa e leva sua fidelidade até o extremo. A árvore torna-se lugar de entrega, o sofrimento torna-se oferta e a morte, que parecia ser o fim do amor, torna-se precisamente o lugar onde o Amor revela que é irrevogável.

Assim, a oliveira de Ítaca pode ser contemplada, à luz da Revelação, como uma imagem cuja profundidade se deixa revelar em plenitude pelas chaves teológicas que a tradição cristã nos oferece: o leito de Odisseu, inseparável da árvore viva em que está enraizado, torna-se uma imagem do matrimônio como aliança, uma união que não se sustenta apenas sobre os sentimentos, mas cria raízes na entrega fiel e irrevogável dos esposos. E essa imagem encontra sua plenitude na Cruz, a árvore sobre a qual o verdadeiro Esposo entrega seu Corpo pela Esposa e manifesta que o amor da Aliança é capaz de permanecer até o extremo.

Que o Senhor conceda a todos os casais a graça de fazer de seu amor um leito enraizado na Aliança, firme diante do tempo, das provações e das tempestades, para que suas próprias vidas se tornem testemunho de que somente aquilo que está verdadeiramente enraizado no Amor permanece. Talvez seja por isso que, quando um amor é vivido assim, até mesmo os grandes personagens da literatura possam tornar-se testemunhas de uma verdade que os ultrapassa: Odisseu e Penélope, separados por vinte anos e reencontrados diante daquele leito enraizado na oliveira, continuam nos recordando que o verdadeiro amor não é aquele que escapa ao tempo, mas aquele que, mesmo atravessando o tempo, permanece fiel à Aliança.

PROFESSOR EDUARDO FARIA