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O Que a Tragédia em Shakespeare Ainda Pode Nos Ensinar Sobre Nós Mesmos 

12 de janeiro de 2026

Em uma época marcada por disputas de narrativa, urgências emocionais e egos sempre inflamados, a literatura (sobretudo a tragédia) volta a ter algo de profundamente necessário a dizer. Obras como Rei Lear, de Shakespeare, e tantos enredos herdados da tradição grega revelam que as grandes quedas humanas nunca começam no caos, mas no íntimo, quando o indivíduo permite que seu julgamento seja distorcido por orgulho, vaidade ou medo. Dessa forma, é nesse ponto que surgem as antigas categorias éticas da tragédia: hamartia, o erro que nasce de uma percepção falha, e hybris, o orgulho que cega. Tais conceitos continuam atuais porque desmontam a ilusão moderna de que destruímos e somos destruídos apenas por forças externas; ao contrário, ruímos por dentro, e nossa ruína frequentemente começa onde nos julgávamos mais fortes.

Diante disso, a história de Rei Lear é exemplar, pois o rei, convencido de que pode medir o amor das filhas, exige que cada uma expresse publicamente sua devoção. Aqui não há maldade deliberada, mas hamartia: um erro de discernimento que nasce de sua limitação humana. Sua incapacidade de reconhecer a verdade simples e contida de Cordélia  (ela é a única que não veste o amor com adornos falsos) abre a via fatal da tragédia. Ao rejeitar justamente aquela que fala a verdade, o Rei Lear se deixa tomar pela hybris, o orgulho que o impede de acolher a sinceridade quando ela se apresenta sem espetáculo. Então, a tragédia se instala não porque Cordélia falha, mas porque a verdade é desconsiderada em nome de aparências sedutoras. Assim como nas peças gregas, Shakespeare expõe o perigo de desprezar a voz que salva apenas porque ela não massageia o ego, ou seja, ela não bajula.

Essa dinâmica tão humana ecoa, em chave moral católica, uma advertência profunda: a verdade raramente grita; ela se oferece com a delicadeza que caracteriza o bem; e Cordélia encarna essa verdade humilde, aquela que não negocia princípios nem busca agradar pela vaidade das palavras. Dessa forma, ela recorda a lógica cristã segundo a qual a fidelidade se mede por obras e retidão, não por demonstrações teatrais. A tragédia de Lear, portanto, não é apenas literária; ela é teológica no sentido mais amplo. Ela é o drama de quem rejeita a graça porque espera que ela venha revestida de brilho e aplausos. Ao contrário dos discursos ocos das irmãs aduladoras, Cordélia permanece firme na integridade, revelando que o amor autêntico sempre exige menos pose e mais verdade.

Assim, a tragédia, tanto a grega quanto a shakespeariana, continua a funcionar como advertência. Ela denuncia o perigo de um mundo que valoriza o ruído, o espetáculo e a afirmação de si a qualquer custo. Ela mostra que a queda não advém do destino cego, mas da decisão interior de preferir o aplauso à autenticidade. Dessa forma, ao integrar os antigos conceitos de hamartia e hybris, a figura luminosa de Cordélia e a sensibilidade cristã que valoriza a verdade silenciosa, a literatura recorda que somos sempre responsáveis por nossas escolhas. E, ao contrário do que muitos desejam acreditar, o colapso ético de uma pessoa, de uma família ou mesmo de uma sociedade raramente é súbito: ele começa quando deixamos de ouvir justamente aquela voz simples, discreta e sincera, a única capaz de nos salvar de nós mesmos.

Alunos do 1º ano do Ensino Médio 2025