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O Mastro (A Cruz) e as Sereias: uma leitura cristã da Odisseia 

18 de agosto de 2026

Dando continuidade à série de textos sobre a relação da Odisseia com elementos cristãos, entre as muitas imagens da Odisseia que atravessaram os séculos e continuam a falar ao coração do homem, poucas receberam da tradição cristã uma interpretação tão fecunda quanto a passagem de Odisseu diante das Sereias. Diante da leitura atenta a essa passagem, o que em Homero aparece como uma aventura marcada pela prudência do herói, um homem que deseja ouvir um canto perigoso sem se deixar arrastar por ele, tornou-se, para os antigos escritores cristãos, uma imagem da própria condição do homem que atravessa o mundo em direção ao Paraíso. O mar, por seu lado, se tornou figura do mundo; a barca, da Igreja; os muitos perigo, das tribulações da vida com suas tentações e perigos; o mastro, da Cruz; e Odisseu, voluntariamente preso a ele, imagem do cristão que encontra precisamente nessa ligação aquilo que lhe permite permanecer livre diante das vozes que poderiam desviá-lo de seu caminho.

Irmãos, sabemos que Homero não tinha, conscientemente, diante de si o mistério da Cruz, há, porém, algo profundamente próprio da tradição cristã na maneira como ela retorna às grandes obras do passado e reconhece nelas sementes de verdade, beleza e desejo humano plantadas nos corações das antigas culturas e manifestadas através de seus tesouros culturais que podem ser contempladas sob uma luz nova depois da vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo. O Verbo, por quem todas as coisas foram criadas, ao entrar na história não destrói aquilo que os antigos poetas contemplaram; antes, revela sua profundidade e permite que aquilo que já possuía uma beleza verdadeira seja conduzido à sua fonte. É por isso que os Padres da Igreja puderam retornar a Homero e encontrar, em suas imagens, uma linguagem capaz de dizer algo que estava em potência na sua poesia somente esperando para ser decodificado.

Para contextualizar o leitor, no décimo segundo canto da Odisseia, Circe adverte Odisseu sobre os perigos que encontrará durante sua viagem de retorno. Ela avisa que as Sereias, sentadas em um prado cercado por uma pilha de ossos humanos, cantam de maneira irresistível, e aquele que se aproxima delas e se deixa prender por sua voz já não consegue retornar à sua casa para abraçar sua família. Por isso, para atravessar aquele lugar, Odisseu recebe uma orientação: os ouvidos de seus companheiros deverão ser tapados com cera, no entanto, ele próprio decide permanecer com os ouvidos abertos, mas amarrado pelas mãos e pelos pés ao mastro da embarcação. Odisseu ainda acrescenta que, se, seduzido pelo canto, pedir que o libertem, seus companheiros não deverão obedecer; deverão apertar ainda mais suas amarras. Assim, enquanto ele escuta, seus companheiros remam, e a barca continua avançando até que a voz das Sereias desapareça ao longe.

Após essa contextualização, veremos como essa cena despertou muito cedo a imaginação alegórica dos cristãos, por exemplo, São Justino Mártir já havia percebido na simbologia do navio e do mastro uma imagem da Cruz; e, mais tarde, a tradição cristã relacionaria o mar ao mundo, o navio à Igreja e o mastro ao madeiro da Cruz. Além disso, a antiga viagem marítima, tão cheia de tempestades, perigos, rochedos e incertezas, podia assim tornar-se uma imagem da própria existência humana: atravessamos um mundo instável, sujeitos a perigos que nem sempre conseguimos prever, enquanto caminhamos em direção ao porto da nossa verdadeira pátria espiritual: o Paraíso.

É justamente aqui que a imagem de Odisseu adquire uma beleza que ultrapassa a própria aventura homérica; pois ele sabe que deseja ouvir o canto e sabe também que, quando o ouvir, talvez já não tenha forças para resistir. Por isso, antes que a tentação chegue, escolhe o mastro para permanecer preso, isso porque ele não confia simplesmente na força que terá naquele momento; confia na decisão tomada enquanto ainda podia discernir.

Santo Ambrósio percebeu a profundidade da imagem desse mastro e a conduziu diretamente à Cruz, pois, para ele, o cristão não deve simplesmente prender-se ao mastro com cordas materiais como Odisseu, mas, como diz a bela expressão recolhida pela santa tradição, deve “com os vínculos do espírito, prender sua alma ao madeiro da Cruz”. Então aquilo que parecia prisão transforma-se em liberdade, Odisseu assim como o cristão, estão presos e, justamente por estarem presos, não podem seguir aquilo que escutam, as mãos e pés estão impedidos, mas, justamente por isso, permanecem livres.

Diante disso, podemos perceber aqui um paradoxo profundamente cristão, pois nem todo vínculo é uma escravidão, pois alguns nos afastam do bem, enquanto outros nos conduzem à verdadeira liberdade em Cristo. Dessa forma, a liberdade não consiste em fazer tudo o que desejamos, mas em poder escolher e realizar aquilo que é verdadeiramente bom. Quando a vontade se deixa conduzir pelo pecado, ela não se torna mais livre, mas perde a capacidade de escolher o bem. Aquele que se une à Cruz não encontra uma prisão, mas o caminho que fortalece e ordena a vontade; estar preso à Cruz, ou ao mastro, significa, portanto, permanecer orientado para o verdadeiro fim. Dessa forma, assim como Odisseu, é necessário decidir antes da provação a que se deseja permanecer ligado. 

Um ponto importante para esse texto está no pensamento de Hipólito de Roma ao perceber outro aspecto dessa passagem, pois, ao interpretar os companheiros de Odisseu, o santo mártir distingue entre aqueles que ainda não possuem força suficiente para enfrentar determinadas vozes e aqueles que, presos ao mastro de Cristo, podem escutá-las sem se deixar dominar por elas. Para os primeiros, a prudência exige tapar os ouvidos; para os segundos, a maturidade permite ouvir e discernir.

A cera nos ouvidos dos companheiros pode, assim, ser contemplada como imagem da prudência, da formação, da disciplina e da guarda dos sentidos. Em outras palavras, há momentos em que precisamos ser protegidos de determinadas experiências porque ainda não possuímos liberdade interior suficiente para discernir o que nelas existe de verdadeiro e o que pode nos desviar, mas essa proteção não é o destino definitivo da alma. Ponto importante: uma verdadeira formação cristã não deseja formar homens incapazes de ouvir; deseja formar homens capazes de ouvir sem naufragar. E é justamente nesse ponto que Clemente de Alexandria oferece uma perspectiva surpreendente, para ele, as Sereias não precisam representar somente as seduções da carne ou os perigos do mundo, na verdade elas podem também evocar a sabedoria da cultura grega. Clemente não queria que o cristão, por medo, fechasse os ouvidos diante de toda ciência, filosofia, poesia, ritmo e beleza. Pelo contrário, acreditava ser possível recolher entre os antigos povos as sementes do Logos, aquilo que havia de verdadeiro e valioso, e colocá-lo a serviço da verdade.

Há aqui algo profundamente belo na maneira cristã de olhar para a cultura da antiguidade e ainda acrescento a de todas as eras: Não somos obrigados a escolher entre aceitar tudo sem discernimento ou rejeitar tudo aquilo que nasceu fora da Igreja. Na verdade, a Igreja nos oferece um terceiro caminho, mais exigente e, por isso, mais libertador: escutar, discernir e purificar. Podemos ouvir Homero, os filósofos, os poetas, a música e as inúmeras vozes da cultura humana ao longo do tempo e perguntar o que existe ali de verdadeiro, de belo e de digno de ser recebido; o que precisa ser purificado; e o que deve ser rejeitado. Toda verdade pertence Àquele que é a Verdade, e toda beleza autêntica possui sua origem última naquele por quem todas as coisas foram feitas.

Este ponto assume um sentido particular ao longo da história da Fé Cristã, pois sempre houve irmãos que, depois de muitos anos de caminhada, receberam maior experiência para reconhecer certas vozes e certos perigos. Talvez Odisseu possa nos ajudar a contemplar especialmente aqueles que receberam a responsabilidade de discernir e orientar: não como homens superiores aos demais, mas como irmãos chamados a conservar os ouvidos atentos ou simplesmente com mais vivência espiritual. Dessa forma, essa escuta possui uma dupla direção, pois é preciso perceber as belezas que existem na literatura, na filosofia, na arte, na música e na própria experiência humana, para que aquilo que nelas existe de verdadeiro possa ser reconhecido e oferecido aos irmãos. Mas também é preciso perceber quando uma voz aparentemente bela começa a afastar a alma de seu verdadeiro destino, em outra forma de dizer: uma Sereia não seduz porque canta mal; seduz porque canta de maneira bela. O perigo espiritual muitas vezes se aproxima revestido de algum bem verdadeiro que perdeu sua ordem, por isso, cabe aos irmãos com essa maior vivência espiritual ou com mais discernimento dado pelo Espírito Santo saber reordenar o canto das sereias a fim de extrair somente o belo sem a contaminação da desordem

Por isso, talvez uma das formas mais delicadas de caridade seja ajudar um irmão a distinguir aquilo que pode receber daquilo que precisa deixar para trás. Não basta simplesmente dizer: “não escute”, quando é possível apresentar uma beleza maior. Santo Ambrósio conduz a alegoria nessa direção: Se o canto das Sereias possui beleza capaz de encantar o homem, quanto mais deveria encantá-lo a voz de Cristo, fonte de toda verdadeira beleza.A resposta cristã à beleza desordenada não é a ausência de beleza, mas a descoberta de uma beleza maior, capaz de a ultrapassá-la, purificá-la e reconduzi-la à sua verdadeira ordem.

Há, porém, outro detalhe da cena que merece muita atenção: enquanto Odisseu escuta, os companheiros continuam a remar, portanto, a barca não avança apenas pela capacidade de discernimento daquele que conhece o perigo, mas também pela capacidade dos companheiros mergulharem os remos na água e, golpe após golpe, conduzirem a embarcação para longe das Sereias e em direção à pátria. Talvez possamos reconhecer aqui a dignidade do serviço humilde, já que há trabalhos que não aparecem, tarefas que ninguém percebe e gestos cotidianos e muito simples que parecem distantes das grandes coisas que imaginamos quando pensamos em uma vocação, mas são os remos que fazem a barca avançar. Odisseu pode reconhecer o perigo, mas não chega a Ítaca sem aqueles que remam. Por isso, discernimento e serviço não se opõem, na verdade, um precisa do outro. Conhecer o rumo sem avançar deixa a barca parada; avançar sem conhecer o rumo pode conduzi-la para longe do destino. Na travessia, cada irmão oferece aquilo que recebeu, e ninguém realiza sozinho aquilo que pertence a todos.

Há ainda uma reciprocidade mais profunda, quando o canto começa a dominar Odisseu, ele pede que o libertem. Os companheiros, porém, não obedecem e como resposta apertam ainda mais suas cordas. Aqueles irmãos de trabalhos simples e menos experientes na vivência espiritual que o acompanham tornam-se, naquele momento, guardiões de uma decisão que ele havia tomado antes de ser seduzido. Existe aqui duas imagens muito belas da vivência fraterna na Igreja: primeiramente, amar um irmão significa ajudá-lo a permanecer fiel àquilo que ele próprio escolheu diante de Deus quando sua visão estava clara, mesmo quando, sob o encanto de alguma voz, já não consegue perceber com a mesma clareza. Em segundo lugar e não menos importante, a Igreja sempre tratou de um dos pontos mais importantes sobre as comunidades cristãs: viver em comunidade tem como função a correção uns dos outros.

Dando continuidade, Máximo de Turim conduz toda essa interpretação ao seu verdadeiro centro, já que para ele, não basta enxergar em Odisseu apenas um modelo moral do cristão prudente. Antes de representar o cristão, Odisseu aponta para Cristo, isso porque, se na fábula o herói amarrado ao mastro atravessa o perigo, na realidade da salvação é Cristo, ligado ao madeiro da Cruz, quem vence definitivamente a morte e torna possível a travessia dos homens. Máximo afirma que o mastro da Cruz não conduz apenas aquele que está ligado a ele para a pátria, mas protege também os companheiros que estão ao redor, à sombra de sua força. Aqui a alegoria encontra seu centro: Os irmãos mais antigos não são o mastro, Cristo crucificado é o centro da barca. Aqueles que receberam a graça de conduzir só podem fazê-lo permanecendo unidos àquele que verdadeiramente conduz. A experiência espiritual não torna ninguém independente da Cruz; por isso, podemos contemplar nossa própria caminhada como uma travessia. O mar é o mundo que somos chamados a atravessar sem desprezá-lo e sem nos deixarmos engolir por ele. A barca é a comunhão na qual recebemos a graça de viajar juntos. O mastro é a Cruz de Cristo, firme em meio a tudo aquilo que se move. As cordas que amarram as mãos e os pés de Odisseu são os vínculos espirituais pelos quais livremente nos unimos a Ele. A cera que tapa os ouvidos dos companheiros é a prudência que protege enquanto o discernimento amadurece. As Sereias são as vozes que precisam ser julgadas: algumas escondem a sedução do pecado; outras trazem fragmentos de uma beleza que pode ser reconhecida, purificada e conduzida à sua verdadeira fonte.

Por fim, Santo Agostinho reune tudo isso quando afirma que ninguém pode atravessar o mar deste mundo senão sendo carregado pela Cruz de Cristo. No fim, não são a habilidade de Odisseu, a força dos remadores ou a resistência da embarcação que possuem a última palavra. Tudo permanece sustentado pelo madeiro. Essa é a imagem que podemos guardar: atravessamos um mundo cheio de vozes e belezas, algumas verdadeiras, outras sedutoras, e precisamos aprender a ouvi-las sem perder Cristo. Há momentos em que será necessário fechar os ouvidos; haverá outros em que seremos chamados a escutar com atenção, discernindo aquilo que pode ser recebido e aquilo que precisa ser deixado para trás. Mas, em todos eles, permanece uma mesma necessidade: não abandonar o mastro.

PROFESSOR EDUARDO FARIA

 

Referências bibliográficas

HOMERO. Odisseia. Canto XII.

JUSTINO MÁRTIR. Apologia I.

CLEMENTE DE ALEXANDRIA. Stromata, I & VI.

AMBRÓSIO DE MILÃO. Expositio Evangelii secundum Lucam, IV.

MÁXIMO DE TURIM. Homilia XLIX.

AGOSTINHO DE HIPONA. In Evangelium Ioannis Tractatus, II.

TÜCK, Jan-Heiner. “Schiffbruch und Planke. Transformationen des Odysseus-Mythos bei den Kirchenvätern, Dante und Claudel.” In: Literatur/Religion.

RAHNER, Hugo. Symbole der Kirche. Die Ekklesiologie der Väter. Salzburg: Otto Müller Verlag.