I
No ventre a Virgem sente o Deus em luz ardente e plena;
e o mundo ignora o mar de glória que em seu corpo acena;
no útero escuro o Menino em ondas lentas se ergue,
lembrando o abismo azul do Gênesis que o Espírito serve.
II
Agora o inverso ocorre: envolto em águas, Ele brilha,
e a gênese retorna em véus de aurora e pura vigília;
a criação ressurge inteira na carne que o recebe,
e o Deus que fez o mar repete o gesto em paz que se percebe.
III
Maria acolhe Aquele que formou o céu e o firmamento,
e agora o gera em carne viva, em véu de puro nascimento;
seu útero guarda Aquele que traz as galáxias na mão,
e cada ardor desperta nela um fogo em súbita combustão.
IV
Cada sol explode nela em chamas que a alma toda inflama,
marcando em cada célula a memória eterna que a reclama;
e tudo quanto Ele criou retorna nela em luz febril,
pois sente o Deus dos mundos vivo e oculto em corpo sutil.
V
Exausta acorda, mas sustém divina luz em novo ardor;
José contempla a dor que nela verte e vira esplendor;
e vê no rosto dela um leve tremor santo e recolhido,
que toca o horror e o maravilhar, depois retorna ao sentido.
VI
Ao recolher as roupas simples sob o vento indo e vindo,
seu rosto guarda um brilho imenso em calmo lume infindo;
José percebia ali grandeza além dos mitos dos romanos,
e a antiga simplicidade inscrita em suas mãos humanas.
VII
Pois viu na esposa a criação pulsar em chama repentina,
um coro de potências vivas moldando a forma que ilumina;
nem Moisés no monte viu visão tão forte e luminosa,
pois nela o Criador refez seis dias em glória radiosa.
VIII
Seis sóis ardem silenciosos dentro do corpo materno,
seis dias refletidos nela em força calma e brilho eterno;
no ventre vibra o gesto antigo do Deus que tudo inicia,
e a criação inteira canta em íntima, oculta sinfonia.
IX
O Deus que pairou no Gênesis sobre as águas primeiras
agora se deixa formar nelas, em ondas vivas e verdadeiras;
e ali se encarna o Amor em carne acesa e transparente,
e o Infinito estreita o tempo no ventre resplandecente.
X
Um universo inteiro pulsa em sua carne iluminada,
e no silêncio de Maria a eternidade é revelada;
as águas antigas unem-se ao sangue terno de mulher,
e o Deus que fez o mundo nasce agora em novo ser.
XI
Sem pai terreno, herdou da Mãe a força santa de sua carne,
substância imaculada e pura que nenhum mal toca ou fere;
do Pai herdou o Espírito em chama ardente que o inflama,
e da pequena Virgem veio a carne humilde que o proclama.
XII
Sua carne humana é força antiga, dócil, pura e verdadeira,
e o dom materno ressoa nele na vida inteira;
o Pai invisível acende o Fogo que ao Filho se entrega,
e a Mãe lhe dá o corpo onde a divindade inteira se integra.
XIII
Se mil galáxias tremem diante do Autor supremo,
e o cosmos falha em conter o Seu fulgor extremo,
como entender que a filha humilde de Israel, tão singela,
guardasse o Fogo eterno em luz maior que a da estrela?
XIV
Colhendo hortelãs e cominho sob a brisa de Nazaré,
erguendo o rosto ao sol num gesto simples de quem crê,
tornou-se a flor que rompe o inverno em silencioso janeiro,
guardando no ventre o Deus dos mundos, o Criador primeiro.



