Camões dizia que o amador se transforma na coisa amada.
E a vida, como um poeta que jamais se cansa, repete esse verso nas veias do mundo.
A baga de uva bebe lentamente a memória do sol.
Nos seus pequenos olhos repousa o fogo do dia,
e a videira se inclina sobre a terra
como quem guarda em silêncio o segredo da luz.
Assim o sol entra no fruto
e amadurece em doçura escondida.
Depois vem a boca que ama.
E aquilo que era apenas luz adormecida na uva
se transforma em vinho,
um vinho espesso como sangue antigo,
um vinho que embala o coração do jovem casal
que bebe sem saber que bebe também
o início do sacrifício do amor.
Pois o vinho tem uma memória profunda:
ele recorda o cordeiro.
E o cordeiro caminha sereno para o altar,
sabendo que seu sangue será vinho
para sustentar o amor dos que virão depois.
Mas o casal,
embriagado pela primeira chama,
ainda não sabe que aquilo que será oferecido
é o arrebatamento pueril do primeiro amor.
Mas do sacrifício nasce um Pentecostes manso.
Não de chamas violentas,
mas de pequenas luzes do cotidiano:
o pão repartido,
o cansaço partilhado,
o silêncio da noite onde dois respiram juntos.
E então o vinho se abre diante deles
como um mar profundo.
Nesse mar vermelho de sol amadurecido
o coração aprende a navegar.
Os amantes tornam-se um único navio,
e o amor é o vento invisível
que infla a vela da alma.
Assim seguem,
não mais apenas embriagados pelo vinho,
mas conduzidos por ele,
atravessando tempestades
até que o mar se torne vermelho
como o sangue sacrificado que cai nas águas.
E, assim, desse mar vermelho
onde o vinho do amor se derramou como sangue,
nascem filhos,
novas uvas que amadurecem na videira da vida.
Filhos que bebem o sangue invisível dos pais
derramado no mar da vida,
como novas uvas que amadurecem
na videira do tempo.
Eles crescerão novamente ao sol
e um dia provarão o vinho da vida,
e novamente o amador se tornará a coisa amada.
Pois o próprio sol arde
porque um dia contemplou o rosto de quem o criou,
e ao vê-lo incendiou-se de amor,
ardendo no desejo de tornar-se
a coisa amada.
Desde então toda a criação vive dessa saudade:
tornar-se aquilo que ama.
A luz corre pelas formas do mundo
como um sangue secreto.
Mas chega um momento
em que o amor já não cabe dentro de si.
Então ele se recolhe
como vinho em um castiçal vivo,
transbordando em um coração.
E assim foi com aquela mulher
que agora me observa enquanto escrevo.
Silenciosa como uma videira carregada de verão.
Foi por ela que a luz entrou no mundo
como vinho que rompe a taça.
Pois é nessa mulher
que arde, silenciosa,
a videira das videiras.
Dela brota a luz que percorre toda a criação:
do sol à uva,
da uva ao vinho,
do vinho ao amor,
do amor ao mar profundo,
do mar aos filhos,
e dos filhos novamente à vida.
E no silêncio do seu olhar
ecoam palavras antigas como o próprio amor a falar:
Este é o sangue
derramado
por vós.
PROFESSOR EDUARDO FARIA



