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Este é o Sangue da Coisa Amada

6 de março de 2026

Camões dizia que o amador se transforma na coisa amada.
E a vida, como um poeta que jamais se cansa, repete esse verso nas veias do mundo.

A baga de uva bebe lentamente a memória do sol.
Nos seus pequenos olhos repousa o fogo do dia,
e a videira se inclina sobre a terra
como quem guarda em silêncio o segredo da luz.

Assim o sol entra no fruto
e amadurece em doçura escondida.

Depois vem a boca que ama.

E aquilo que era apenas luz adormecida na uva
se transforma em vinho,
um vinho espesso como sangue antigo,
um vinho que embala o coração do jovem casal
que bebe sem saber que bebe também
o início do sacrifício do amor.

Pois o vinho tem uma memória profunda:
ele recorda o cordeiro.

E o cordeiro caminha sereno para o altar,
sabendo que seu sangue será vinho
para sustentar o amor dos que virão depois.

Mas o casal,
embriagado pela primeira chama,
ainda não sabe que aquilo que será oferecido
é o arrebatamento pueril do primeiro amor.

Mas do sacrifício nasce um Pentecostes manso.

Não de chamas violentas,
mas de pequenas luzes do cotidiano:
o pão repartido,
o cansaço partilhado,
o silêncio da noite onde dois respiram juntos.

E então o vinho se abre diante deles
como um mar profundo.

Nesse mar vermelho de sol amadurecido
o coração aprende a navegar.

Os amantes tornam-se um único navio,

e o amor é o vento invisível

que infla a vela da alma.

Assim seguem,

não mais apenas embriagados pelo vinho,

mas conduzidos por ele,

atravessando tempestades

até que o mar se torne vermelho

como o sangue sacrificado que cai nas águas.

E, assim, desse mar vermelho

onde o vinho do amor se derramou como sangue,

nascem filhos,

novas uvas que amadurecem na videira da vida.

Filhos que bebem o sangue invisível dos pais

derramado no mar da vida,

como novas uvas que amadurecem

na videira do tempo.

Eles crescerão novamente ao sol
e um dia provarão o vinho da vida,
e novamente o amador se tornará a coisa amada.

Pois o próprio sol arde

porque um dia contemplou o rosto de quem o criou,

e ao vê-lo incendiou-se de amor,

ardendo no desejo de tornar-se

a coisa amada.

Desde então toda a criação vive dessa saudade:
tornar-se aquilo que ama.

A luz corre pelas formas do mundo
como um sangue secreto.

Mas chega um momento
em que o amor já não cabe dentro de si.

Então ele se recolhe
como vinho em um castiçal vivo,
transbordando em um coração.

E assim foi com aquela mulher
que agora me observa enquanto escrevo.

Silenciosa como uma videira carregada de verão.

Foi por ela que a luz entrou no mundo
como vinho que rompe a taça.

Pois é nessa mulher

que arde, silenciosa,

a videira das videiras.

Dela brota a luz que percorre toda a criação:

do sol à uva,

da uva ao vinho,

do vinho ao amor,

do amor ao mar profundo,

do mar aos filhos,

e dos filhos novamente à vida.

E no silêncio do seu olhar
ecoam palavras antigas como o próprio amor a falar:

Este é o sangue
derramado
por vós.

PROFESSOR EDUARDO FARIA