Você está aqui:

Ecos Anteriores ao Sino (Um canto ao Pentecostes)

24 de maio de 2026

Músicas descem do céu pelas vinhas em flor,

como rios de fogo sob os olhos do Senhor;

não trazem voz humana ou rumor peregrino,

mas ecos anteriores ao primeiro sagrado sino.

 

O vento, embriagado em perfumes de rosa,

derrama sobre o mundo a sua harpa radiosa;

e passa entre oliveiras, entre pães e candeias,

acendendo nos homens antigas marés cheias.

 

As pedras estremecem sob a língua do fogo,

o mar ergue seus braços como um imenso rogo;

e as estrelas inclinam suas coroas em brasa

ao sopro que atravessa telhados e os arrasa.

 

Cada nota derrama um óleo sobre a argila,

fazendo arder de luz a carne humilde e tranquila;

clama por nomes sepultados no esquecimento,

como sinos submersos despertados pelo vento.

 

Há veredas abertas entre o trigo e o incenso,

onde o céu se derrama sobre o barro indefeso;

e o coração caminha entre vinhedos e salmos,

bebendo o vinho vivo derramado nas almas.

 

Então descem do alto as línguas vivas do fogo,

não para ferir a terra, mas para refazê-la em logos;

e os doze se levantam como torres acesas,

com os olhos inundados de jardins e clarezas.

 

Cada homem recebe uma centelha distinta:

uns recebem o canto, outros a palavra bendita;

uns carregam o óleo, outros a consolação,

mas o Espírito costura luz dentro de cada mão.

 

Como o corpo é um só sob a luz da alvorada,

mesmo tendo mil membros na mesma carne enlaçada,

assim também os povos, tão distantes na terra,

bebem do mesmo fogo que toda distância encerra.

 

Já não há vinho antigo em taças dionisíacas,

mas outro vinho oculto em chagas hieráticas;

vinho que enlouquece sem destruir a razão,

e faz do peito humano uma fornalha de oração.

 

Cantam povos antigos sob macieiras maduras,

cantam homens da noite e crianças futuras;

e o universo responde em rosáceas e estrelas,

como um grande coral abrindo eternas janelas.

 

O Espírito atravessa as muralhas do medo,

toca a boca dos homens com invisíveis dedos;

e cada língua humana, incendiada de repente,

transforma-se em rio vivo correndo entre a gente.

 

Não existe tristeza sepultada para sempre,

nem silêncio final sobre a carne do ventre;

somente a vida em chama, em movimento profundo,

buscando a luz primeira que respira no mundo.

 

 

PROFESSOR EDUARDO FARIA