Devido às aulas de latim lecionadas para o Ensino Médio, precisei retomar leituras e estudos antigos para tirar a ferrugem, pois, embora aprender uma língua se assemelhe a andar de bicicleta, habilidade que nunca não se perde, é necessário, após um período de inatividade, tirar a bicicleta do lugar, limpar-lhe a ferrugem e encher os pneus, para que o movimento recupere o equilíbrio e a segurança; e foi justamente nesse gesto de voltar a pedalar, recuperando o ritmo, que reencontrei um trecho Eneida de que sempre gostei devido à força de sua simbologia: “Ergo age, care pater, cervici imponere nostrae; ipse subibo umeris nec me labor iste gravabit.” (Vem, então, querido pai, coloca-te sobre os meus ombros; eu te sustentarei, e esse peso não me será um fardo.). Esse momento, que descreve a fuga de Tróia em chamas, não é apenas uma cena épica, mas uma imagem concentrada de uma vida humana bem ordenada, pois Enéias não foge como quem abandona tudo, mas parte como quem transmite aquilo que recebeu.
Nesse gesto silencioso, Virgílio constrói uma das imagens mais profundas da Antiguidade, que mais tarde marcaria o pensamento cristão: a do homem que caminha para o futuro sem romper com o passado, sem transformá-lo em absoluto e sem perder o sentido último que mantém tudo unido. Quando Tróia arde, Enéias poderia salvar apenas a si mesmo, mas escolhe carregar Anquises, seu pai, figura do passado, conduzir Ascânio, seu filho, sinal do futuro, e levar consigo os símbolos sagrados, isto é, aquilo que dá sentido à caminhada. Assim, o passado não é negado nem colocado à frente como obstáculo, mas sustentado; o futuro não é controlado nem antecipado, mas acompanhado; e ambos permanecem em harmonia porque se submetem a algo maior, o sagrado.
O próprio verso de Virgílio revela esse núcleo: o passado pesa, mas não oprime (nec me labor iste gravabit: esse peso não me será um fardo) , essa atitude de Enéas exige esforço mas sem escravizar. Anquises, incapaz de caminhar, representa a memória e a tradição, que Enéias não idolatra, já que não anda voltado para trás, mas também não abandona, pois a carrega para que não se perca. Ascânio, por sua vez, caminha, mas ainda não decide, pois é frágil e dependente; Enéias não projeta em seu filho seus desejos ou sua glória, apenas o conduz, de modo que o futuro não se transforma em ansiedade, mas permanece como promessa.
Esse equilíbrio só é possível porque existe um terceiro elemento que ordena passado e futuro: os objetos sagrados que Enéias leva consigo. Não se trata de objetos mágicos, mas do sentido último da história, que impede a memória de se tornar nostalgia e a promessa de se tornar idolatria. A cidade pode morrer, mas a vocação permanece, pois o sagrado não fica preso às ruínas, por isso, como ocorre na Igreja Católica, mosteiros são fechados, períodos obscuros do Clero passam, mas a Vocação do Cristão em torno da promessa de Cristo permanece, não importa o quanto a Barca de Pedro balance no mar do mundo. Por isso, o peso não se transforma em fardo, pois, assim como Enéias carrega muito, o católico carrega com sentido verdadeiro, vivendo não do que perdeu nem do que ainda não tem, mas da fidelidade ao que lhe foi confiado, os objetos sagrados. O heroísmo de Enéias, assim como o nosso, quando permanecemos fiéis a esse mesmo movimento que ele realiza em relação ao passado e ao futuro, mantendo o sagrado como eixo de nossas vidas, não se manifesta na conquista, mas na transmissão fiel daquilo que nos foi confiado.
Essa mesma estrutura, por exemplo, aparece de forma clara na vida de São José, que também caminha para o futuro sem romper com o passado, guarda a tradição sem absolutizá-la, conduz um futuro que não controla e protege o sagrado não como símbolo, mas como presença viva. Assim como Enéias, São José sustenta a memória sem ser prisioneiro dela, conduz a promessa sem dominá-la e serve a um desígnio maior do que ele mesmo. A diferença é fundamental, mas não contraditória: em Enéias, o sagrado é figura; em José, é presença. Ambos, porém, ensinam a mesma lição silenciosa: a vida só encontra ordem quando passado, futuro e presente permanecem fiéis a algo maior do que o próprio homem.
PROFESSOR EDUARDO FARIA



