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Áspero Amor: Cântico de Maria Madalena ao Jardineiro

7 de abril de 2026

Ó áspero Amor,

rosa coroada de espinhos,

bosque ameno entre minhas paixões,

lança que corrige o caminho da carne,

por que escolheste habitar em mim?

 

Eu caminhava entre pedras removidas,

entre o perfume recente de um túmulo aberto,

na manhã ainda ferida de silêncio,

quando te tomei por jardineiro.

 

Caminhava entre flores frias,

com os pés feridos por um falso conforto,

recolhendo restos de mim ausente

como quem recolhe pó de ossos sem nome

entre as pedras dos túmulos de antigas memórias.

 

E, de súbito,

teu fogo,

não como aurora suave,

mas como lâmina acesa,

rasgou o inverno do meu peito.

 

Quem te ensinou o caminho até mim?

Que pedra falou de mim ao teu coração?

Que pó guardou meu nome para ti?

Que flor, perdida entre esses túmulos,

te mostrou minha morada?

 

Eu não te conhecia,

ou pior,

te conhecia como perda.

 

E o jardim respirava em segredo,

as árvores elevavam seu vinho oculto,

a terra estremecia em perfumes

que eu não sabia ler,

e tu estavas ali,

como raiz mais profunda que a morte.

 

Falei contigo como quem fala com a terra,

como quem suplica ao silêncio,

e tu me escutavas

como quem já havia respondido

antes desse tempo.

 

Então disseste,

 

Maria.

 

E meu nome foi fogo nas raízes,

vinho subindo por todas as copas do meu ser,

luz quebrando a pedra onde eu me escondia.

 

E compreendi ardendo,

 

teu amor não chega,

irrompe.

 

Não pede,

toma.

 

Não explica,

fecunda.

 

Era cruel, sim,

como a primavera que rasga o inverno,

como o vinho que embriaga até a lucidez,

como a lâmina que abre caminho

para que o sangue aprenda a viver.

 

E eu fui cercada,

sem trégua.

 

Teu amor cresceu como árvore em mim,

erguendo copas onde antes havia noite,

fazendo da minha dor

um campo onde o fogo floresce.

 

E então me lançaste

entre espinhos,

entre espadas,

 

não para ferir-me,

mas para abrir em mim

um caminho de chamas.

 

Ó Amor,

que lembrança plantaste em mim

antes da memória?

 

Recordo, sem ter vivido,

um bosque secreto

onde os aromas subiam como sangue,

onde a terra era ouro inquieto,

onde raízes falavam

e espinhos guardavam segredos.

 

Recordo um ramo,

sombra e água,

silêncio que pulsa,

peso leve como pedra coberta de espuma,

como se toda a criação

fosse apenas um gesto teu

tentando me alcançar.

 

E agora sei,

 

tu me esperavas

onde nada me esperava.

 

E ali,

onde o vazio parecia absoluto,

falamos.

 

Não com palavras,

mas com tudo o que, desde sempre,

estava à espera de ser dito.

 

E eu,

que era inverno,

que era pó,

que era caminho sem chegada,

tornei-me onda.

 

Porque teu amor

não se responde,

habita.

 

não se mede,

incendeia.

 

não começa,

recorda.

 

E ao dizeres meu nome,

Áspero Amor,

 

fizeste de mim

não aquela que te busca,

 

mas aquela

que sempre foi

encontrada.