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Antes que o Presente Passe

22 de dezembro de 2025

“Em Deus não há antes nem depois.”

(Confissões, XI)

O ano se aproxima do fim, mas o tempo contempla minha contagem com absoluta indiferença. Não se inclina diante de meus calendários, nem reconhece a solenidade artificial de minhas datas. Ele apenas me consome, lenta e silenciosamente, como um mestre antigo que ensina não por palavras, mas pelo desgaste contínuo, mastigando-me com a mesma paciência impessoal com que devora milhares de sóis desde o instante inaugural em que o primeiro deles incendiou o ventre ainda informe da criação.

Filho do rosto de mármore do Ancião dos Dias, se o tempo pudesse perceber (a partir de sua frieza absoluta) este nosso assombro pueril diante de mais um sol que ele engole com idêntica serenidade, dificilmente se daria ao trabalho de esboçar o sorriso indulgente de um adulto diante das ilusões de uma criança. Sua percepção se assemelharia, antes, ao olhar imóvel de uma montanha antiga diante de um filhote de ave sendo devorado em alguma de suas encostas. Nenhuma pedra se moveria em comoção. Nenhuma consciência despertaria. Apenas um encontro acidental de olhares, logo dissolvido no mesmo silêncio absurdo de sempre.

Esse pensamento me deixa sinceramente estarrecido, pois, se tal olhar existisse, seria mais frio do que o meu enquanto escrevo estas linhas pois, por acaso, meus olhos tropeçam na cena banal de uma pequena aranha dominando uma mosca na parede da minha casa. Um acontecimento que não interrompeu a escrita nem desviou minha mão. Ainda assim, o olhar da montanha seria mais distante que o meu; mas, o da montanha, por sua vez, nada seria diante do olhar indiferente de uma galáxia ante o colapso final de uma estrela massiva, dissolvendo-se em luz na violência silenciosa de uma supernova. Apesar disso, ainda assim, tudo isso não se aproximaria sequer do rosto sem rosto do tempo impassível diante dessas ruínas.

No entanto, algo me toca o coração com uma profundidade incômoda — uma intuição, ou talvez uma realidade (não sei ao certo), que possivelmente também tenha alcançado Santo Agostinho quando ousou interrogar o tempo e, ao fazê-lo, confessou sua derrota. A razão de seu aparente fracasso não residia em limitação intelectual, mas no reconhecimento de que ele sabia perfeitamente o que o tempo era enquanto não lhe perguntavam; contudo, no instante em que buscava explicá-lo, via-se reduzido ao silêncio. Não sabia por falta de inteligência ou por preguiça, mas porque o tempo, quando submetido à posse conceitual,  ele se desfaz porque não corre fora de nós como um rio objetivo, mas se distende no interior da alma inquieta. Manifesta-se como memória do que já não é, atenção frágil ao instante que escapa enquanto se apresenta, e expectativa ansiosa do que ainda não veio. Em outras palavras, o tempo não é um ser que passa, mas uma tensão interior, quase uma fissura aberta no espírito humano.

Ainda assim, mesmo recolhido à interioridade, o tempo não perde sua dimensão cósmica, ao contrário, ele permanece criatura, ordenado por Deus, submetido à economia da criação e, paradoxalmente, colocado a serviço do homem. Pois, embora nos pareça vasto e esmagador como apresentado no início desse texto, tem o mesmo Criador que nos chamou à existência. Ele foi feito, portanto, entre outras atribuições incompreensíveis, para dar ordem ao mundo, e essa ordem foi pensada para acolher o homem como ápice da criação, apesar de sua pequenez diante dos abismos do universo. Tudo isso, até mesmo o tempo em sua indiferença aterradora, existe para o homem.

Penso nisso enquanto vejo os conceitos de tempo escorrerem por entre meus dedos nos sons do teclado a digitar essas palavras. Meus pensamentos vão dos gregos, para quem o tempo ora era o eterno retorno, ora a sombra projetada pelo movimento dos astros; passando por Santo Agostinho, que o recolheu à alma como mencionado acima; por Kant, que o encerrou como forma da sensibilidade; até chegar à modernidade tardia, onde Einstein dissolveu a última ilusão de estabilidade ao revelar que o tempo não é absoluto, mas elástico, curvado pela matéria, inseparável do espaço.

Desde então, o tempo deixou de ser apenas mistério para tornar-se vertigem. Dividido, contado e administrado, ele já não se deixa experimentar como fluxo: ora se precipita, ora se arrasta, ora se expande, ora se comprime, até assumir a forma de urgência e de prazo. E, quando o tempo é pensado apenas em termos de utilidade, o mundo que nele habita também se empobrece, passando a existir não para ser contemplado, mas para servir — para, estupidamente, ser útil. É o tempo que escapa aos sentidos, como já observara Agostinho; o tempo relativizado e instável revelado pela física moderna; o tempo técnico de nossas agendas e dispositivos. Formas distintas de apreensão que, embora descrevam, meçam ou organizem sua passagem, permanecem incapazes de tocar aquilo que verdadeiramente importa.

Digo isso porque há um tempo mais decisivo e também mais perigoso, o tempo do homem em busca d’Aquele que foi anunciado há dois mil anos. Um tempo que, embora já tenha passado na história, continua a passar por nós e continuará a fazê-lo até ser recolhido por Aquele que, ao irromper no mundo, alterou definitivamente o curso desses mesmos dois mil anos. É esse mesmo Anunciado, o Cordeiro, que o homem continua a buscar, e buscá-lo assemelha-se a tentar compreender o próprio tempo. Quando se tenta possuí-lo, ele já não está; quando se tenta agarrá-lo, ele escorre. Apenas quando a vontade se abre para acolher, e não para dominar, ele se aproxima e nos coroa não com controle, mas com santidade.

Controlar o tempo, controlar tudo: eis o vício de nossa época. Medimos o tempo como medimos tarefas, orações e progressos espirituais. Organizamos agendas para a santidade como se a santidade fosse um projeto técnico. Planejamos, revisamos, calculamos, enquanto o presente, único lugar onde Deus se oferece, permanece intocado. Talvez por isso se chame presente, porque é dado como presente; e é justamente nesse presente que se encontra a Graça, oferecida gratuitamente no agora, no presente, diante do qual raramente nos detemos em gratidão. São esses pequenos instantes do presente, cada um trazendo consigo o presente da Graça, como discretos presentes de Natal embrulhados com todo carinho pelo Cordeiro, silenciosos e aparentemente inúteis, que se revelam mais preciosos do que todas as imagens congeladas do passado e mais reais do que todas as projeções de um futuro que não existe, mas ao qual nos agarramos como se fosse garantido. E assim, enquanto os presentes passam, cada um trazendo consigo sua Graça, talvez o essencial continue a escorrer em silêncio, aguardando não ser capturado pela angústia das agendas, mas acolhido no coração em paz e esperança tranquila no presente.

Pois, no fim, não será o tempo que nos julgará, mas o que fizemos do presente. O juízo não acontece na sucessão dos instantes, mas naquele agora que não passa, onde tudo está diante de Deus de uma só vez, sem antes nem depois. A eternidade não se mede nem se agenda, ela é presença plena, inteira, imóvel. E é a esse agora absoluto que seremos expostos. Não com nossas listas ou desempenhos, mas com aquilo que fomos quando cessaram as ocupações e o silêncio se impôs. Talvez por isso o presente nos seja tão incômodo. Ele se aproxima demais da eternidade, e talvez o drama do católico moderno não seja a falta de práticas, mas o medo desse encontro no qual tudo já está dado, tudo já está diante de nós, e nada mais pode ser controlado.

Feliz natal! Vivam o presente de natal da Graça embrulhado em cada momento presente, não no passado e nem no futuro.

 

PROFESSOR EDUARDO FARIA