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A Serra mineira que entoa o Magnificat

28 de novembro de 2025

Meu espírito — e meus pés sujos do vermelhão dos caminhos de Minas — engrandecem o Menino Deus no colo de sua santa Mãe. O espírito O louva nas orações ditas no silêncio das varandas, nas tardes vaporosas que cheiram ao fumo dos mais velhos; os pés, ao subir e descer as montanhas onde moro, O louvam em movimento. Dizem que aqui são apenas serras, mas nós sabemos: são alturas onde a alma encontra um modo de tocar o céu, como se cada pedra fosse uma escada guardando calor e silêncio antigos. Andando, meus pés aprenderam que a oração se faz também no caminhar. Nessas subidas e descidas — próprias da vida desconfiada e mansa de Minas — percebi que a pedra se ergue como quem reza calada, guardando um calor que às vezes quer romper a rocha do peito para sussurrar um recado de Deus.

Essas montanhas são gigantes quietos, mas não mudos; basta encostar o ouvido para ouvir a terra inteira conversando com o Alto. E assim meu coração, antes envergonhado por se achar mais alto e orgulhoso, aprende humildade diante desse silêncio imenso: rochas absurdamente antigas, que estavam aqui antes de mim e continuarão depois que eu me for, todas prostradas diante do Menino e de sua Mãe. Agora, através dos meus pés, meu coração engrandece com elas o Santo Nome.

Entre essas montanhas — onde nunca vi pastor nem ovelha — conheço, porém, o passo firme do boi carreiro e a condução resoluta do boiadeiro. Ele abre caminho entre as alturas e seus trilhos vermelhos não com cajado, mas com o berrante e a vara de ferrão. Um só toque do berrante — grave, comprido, como senha antiga — avisa à boiada dos meus sentimentos onde há perigo e para onde a estrada aponta. E com a vara de ferrão, guia de perto, tocando um boi, ou talvez um sentimento mais rebelde, com a precisão de quem conhece cada temperamento. Assim ele risca no mundo um rastro estreito, mas seguro, por onde a vida inteira pode seguir sem tropeçar; e nesse rastro, aprendido na poeira vermelha, meu espírito e meus pés continuam a engrandecer o Deus-Menino que ilumina tudo por dentro.

Trago comigo a cor e o peso dessa terra vermelha das Minas, por onde passam esses bois e seu boiadeiro — essa poeira viva que se levanta como se tivesse vontade própria, encostando nos pés, nos muros, no pensamento. Às vezes ela cintila, como se guardasse um lume antigo desde a criação; outras vezes pesa, espessa e lenta, como oração rezada com voz trêmula, boca seca e coração apertado de saudade. É dessa terra que sou feito: carne, barro e esperança amassados juntos por essa comitiva de bois em meu peito, como se cada casco acendesse faíscas invisíveis de um fogo antigo, misturando pó e luz até que o coração virasse uma forja onde Deus molda o que sou; tudo isso pulsando na cadência mansa e persistente do interior, onde até o silêncio traz consigo um peso de revelação, como se cada pausa fosse um recado de Deus enterrado no chão.

É nesse chão, meio áspero e meio acolhedor, que minha alma aprende a glorificar a Senhora que traz o Senhor no colo. Quando Ela aceita pisar o pó vermelho do meu coração para ficar só mais um instante com o Menino, alegro-me como quem acende o fogão a lenha antes do amanhecer para preparar um biscoito humilde, minha forma tropeça de oferecer alegria ao Menino Deus — e, em troca, recebo um calor que não é meu, mas me visita devagar. Ele mora aqui, neste oratório simples que sou, escondido no canto silencioso da vida, e escolheu habitar este mineiro teimoso, lento como boi que não arreda do caminho nem por praga, nem por caminhão berrando no barranco.

Então percebo que o Todo-Poderoso realiza maravilhas até neste chão torto que sou; Seu Nome nasce atrás da serra como um sol que insiste, iluminando primeiro os cantos mais improváveis, e Sua misericórdia corre como água entre pedras, encontrando brechas onde ninguém apostaria, e se derramando de geração em geração — tocando aqueles que tremem não de medo, mas de reconhecimento, como quem escuta o primeiro choro de um menino no colo de Maria e entende, de repente, que a vida inteira estava esperando por aquele som.

No vento que desce a encosta sinto a força do Seu braço — braço de menino travesso e ao mesmo tempo de Rei oculto — varrendo os soberbos como poeira sem pouso, desmanchando o brilho falso dessa gente que só brilha de longe, enquanto ergue os humildes com a delicadeza de levantar uma criança sonolenta que ainda procura o mundo no primeiro raio de manhã. Aos famintos de Seu amor, Ele prepara mesa farta, não só de feijão cremoso e pão quente, mas de Palavra viva, que encontra ninho em meu peito como o joão-de-barro encontra árvore firme, construindo casa nas alturas, como se anjos discretos soprassem graça pelas frestas da porta e pelos fogões a lenha que nunca deixam de arder.

Sei que Ele acolheu Israel, mas também acolhe este mineiro da cor da terra, lembrado da antiga misericórdia que corre pelo tempo como rio que nunca se cansa; e cumpre o que prometeu — a Abraão, aos seus filhos e a nós que caminhamos entre montanhas, cachoeiras e poeira vermelha que se agarra ao rosto como beijo ciumento, lembrando que pertencemos à terra, mas ela pertence a Deus. Esse abraço da terra, meio bruto e meio terno, parece herança da Mãe d’Ele: que afaga, sustenta, protege e também puxa pela mão quando o filho se desvia. Porque Deus ama a gente desse jeito mineiro — silencioso, forte, fiel, com fogo por dentro que não abandona os seus.

E quando ergo os olhos para o céu de Minas, onde as estrelas brilham como brasas sopradas pelo próprio Espírito, meu coração — antes duro como pedra de rio — começa a aprender o canto delas. E nesse canto que acende as coisas de dentro posso dizer, junto com tudo o que respira:

Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo.

Como era no princípio, agora e sempre. Amém.

PROFESSOR EDUARDO FARIA