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A nudez de Odisseu: o despojamento de si e o encontro com a alma

20 de outubro de 2026

Breve contextualização: 

Em suas aventuras e sofrimentos, Odisseu, após deixar a ilha de Calipso, onde permaneceu por anos, parte em uma jangada rumo a Ítaca, desejando ansiosamente reencontrar sua esposa. Entretanto, Poseidon, ainda ressentido com a cegueira de seu filho Polifemo, desencadeia uma tempestade que dstrói sua jangada. No entanto, em meio às ondas, Odisseu recebe o auxilio da deusa Ino, que lhe oferece seu véu divino para protegê-lo do afogamento e o aconselha a abandonar a jangada e despir as roupas antes de se lançar ao mar. Dessa forma, despojado até de suas últimas vestes, o herói luta contra as aguas até alcançar a costa dos feácios, exausto e nu. Naquele local, ele se abriga entre as arvores e por fim adormece, coberto por folhas, enquanto a deusa Atena prepara o encontro que ocorrerá na manha seguinte; e justamente nesse estado de extrema vulnerabilidade física e psicolõgica que Nausícaa, filha do rei Alcínoo, chega ao local para lavar roupas com suas servas. Despertado pelas brincadeiras das jovens servas e da princesa, Odisseu sai de seu esconderijo para pedir ajuda, iniciando o encontro com aquela que lhe oferecerá ajuda.

Quando Odisseu chega à terra dos feácios, depois de sobreviver ao naufrágio e a todos os perigos mortais, encontra-se despojado de tudo aquilo que, até então, lhe assegurava uma posição diante do mundo. No caso dele, navio, companheiros, tesouros acumulados, até mesmo a roupa do corpo do herói que enfrentou guerras, arquitetou estratagemas e sobreviveu a inúmeras provações aparece agora nu, exausto e vulnerável, sem os sinais exteriores de sua grandeza. Aquele que tantas vezes dependeu da própria inteligência e habilidade encontra-se reduzido à condição de um homem que nada possui além da própria existência. Sua nudez, portanto, não representa apenas a perda dos bens materiais, mas oferece uma imagem da condição humana quando todas as seguranças desaparecem e o homem é obrigado a confrontar aquilo que verdadeiramente é.

Essa imagem poderosa oferece uma chave simbólica para uma leitura crista da jornada: o despojamento de tudo e, sobretudo, de si mesmo. Ao se pensar nas Escrituras, a perda dos bens e das seguranças humanas aparece frequentemente associada à descoberta de uma realidade que ultrapassa a própria existência terrena. Por exemplo, Jó, depois de perder tudo, reconhece a fragilidade radical da condição humana ao declarar: “Nu saí do ventre de minha mãe, e nu voltarei”. Dessa forma, a nudez, nesse contexto, recorda que nada daquilo que o homem acumula constitui sua posse definitiva. De maneira semelhante, em uma passagem do Eclesiastes afirma-se que, assim como o homem saiu nu do ventre materno, também partirá sem levar consigo os frutos de seus trabalhos. Assim sendo, a nudez de Odisseu pode ser contemplada à luz dessas passagens, em outras palavras, a figura do herói, privado dos sinais de sua gloria e de um total despojamento, encontra-se diante da verdade elementar de sua condiçao e de todo ser humano, na qual nenhuma conquista humana é capaz de assegurar a plenitude da existência.

Essa leitura pode ser observada também em passagens do Novo Testamento, ganhando uma dimensao ainda mais profunda, pois Cristo ensina que aquele que deseja segui-lo deve renunciar a si mesmo, tomar sua cruz e acompanhá-lo. Essas palavras de Cristo não abordam apenas o abandono dos bens exteriores, mas de uma renúncia à pretensão de fazer da própria vontade o centro absoluto da existência. Em outro momento, Jesus, ao jovem rico, dirige o convite para vender todos os seus bens, distribuí-los aos pobres e segui-lo, prometendo-lhe um tesouro no Céu. São Paulo, por sua vez, declara considerar perda de tempo todas as coisas diante da excelência do conhecimento de Cristo, por quem aceitou perder tudo, a fim de ganhá-lo. Essas passagens revelam uma mesma exigência espiritual: para encontrar aquilo que é verdadeiramente essencial, o homem precisa aprender a desprender-se daquilo que o mantém prisioneiro de si mesmo. Algo semelhante ocorre com Odisseu quando Ino lhe orienta a abandonar a jangada e despir-se das roupas para conseguir usar o véu que lhe salvaria a vida. Inicialmente, mesmo diante do perigo de vida iminente, o herói desconfia da deusa e hesita em abandonar a embarcação. Somente quando percebe que permanecer nela significaria afundar junto, decide largar a jangada e despojar-se das últimas vestes e confiar no auxílio. Em um movimento inesperado da narrativa, é ao abandonar aquilo que ainda parecia garantir a vda e nela se agarrava que Odisseu, por fim, encontra o caminho para preservar a própria vida; a cena evoca as palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo: “Quem quiser salvar a sua vida, a perderá; mas quem perder a sua vida por causa de mim, a encontrará”. Assim sendo, o episodio oferece uma chave simbólica para compreender como, por vezes, é necesssário renunciar às falsas segurancas para alcançar a verdadeira vida.

Dessa forma, é nessa perspectiva que a nudez de Odisseu pode ser aproximada da espiritualidade de São Joao da Cruz, especialmente de sua doutrina do Nada; para o santo, o caminho da união com Deus exige o desapego das posses, dos desejos desordenados e até mesmo das satisfações espirituais às quais a alma procura se agarrar. Dessa forma, o homem deve desprender-se não apenas do que possui, mas também da imagem que construiu de si mesmo, de sua autossuficiência e da pretensão de alcançar a plenitude exclusivamente por suas próprias forças.

Odisseu então chega à praia da terra dos feácios, e nesse momento, a imagem do herói lançado à praia, privado de suas riquezas e de sua antiga condição, permite reconhecer simbolicamente o homem que, depois de atravessar as tempestades da existência, descobre a insuficiência de suas próprias forças. Assim sendo, o guerreiro permanece vivo, conserva sua inteligência, sua memória e sua vontade, mas já não pode recorrer aos sinais exteriores de sua grandeza; na verdade, o naufrágio retirou dele as camadas que ocultam sua condição mais profunda, deixando-o diante de uma verdade que nenhuma armadura poderia proteger.

Entretanto, o despojamento não encontra seu sentido último na simples experiência da perda. Na tradição cristã, o esvaziamento de si não constitui um fim, mas uma abertura ao encontro; o próprio Cristo, conforme o hino da Carta aos Filipenses, esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de servo. Embora o despojamento involuntário de Odisseu não possa ser equiparado ao esvaziamento voluntário de Cristo, ambas as imagens permitem contemplar, em planos distintos, o paradoxo espiritual segundo o qual a verdadeira grandeza não se identifica necessariamente com a posse, o domínio ou a exaltação de si. Aquele que perde as falsas seguranças pode descobrir uma riqueza que antes permanecia encoberta.

É precisamente nesse ponto que a nudez do herói abre uma segunda possibilidade simbólica: o encontro do homem com a própria alma. Despojado daquilo que o definia exteriormente, Odisseu encontra-se diante de sua humanidade mais íntima. Em uma leitura espiritual, a praia dos feácios pode ser compreendida como o limiar desse encontro interior, o lugar em que o homem, depois de perder suas falsas certezas, começa a voltar-se para a profundidade de si mesmo. Essa imagem encontra ressonância nas palavras de Cristo: “De que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se vier a perder a sua alma?”. O verdadeiro naufrágio, nessa perspectiva, não seria a perda dos bens, das honras ou da glória, mas a perda da própria alma em meio às conquistas do mundo.

Contudo, encontrar a própria alma não significa encontrar nela uma realidade fechada em si mesma, como se o homem pudesse alcançar sua plenitude apenas pelo autoconhecimento. Isso porque para a espiritualidade crista, a interioridade é também o lugar em que o homem pode descobrir a presença de Deus, que o chama a uma comunhao mais profunda. Seguindo esse pensamento, Santo Agostinho exprime essa experiência ao reconhecer que buscava fora de si aquele que lhe era mais íntimo do que sua própria intimidade. Dessa forma, o retorno à alma torna-se, assim, não um movimento de isolamento, mas uma abertura àquele que nela deseja habitar. Como ensina São Paulo em Efésios 3, Cristo habita nos corações pela fé, e o próprio Senhor promete, em João 14, juntamente com o Pai, fazer morada naquele que o ama e guarda sua palavra.

Sob essa perspectiva, o encontro de Odisseu com Nausícaa (que será desenvolvido em outro artigo, se Deus assim o permitir), adquire uma nova possibilidade simbólica. Isso porque a primeira figura que o herói encontra depois do naufrágio é uma jovem que, diante de sua nudez e vulnerabilidade, não o abandona, mas o acolhe e lhe mostra o caminho. Em uma contemplação cristã, essa presença feminina pode evocar Santa Maria, não apenas como intercessora que auxilia o peregrino em suas necessidades, mas como aquela que conduz a alma totalmente despojada de si ao encontro de Cristo. A imagem espiritual que se forma é a da Virgem com o Menino Jesus nos braços: a Mãe que se apresenta ao homem despojado trazendo consigo aquele que constitui a verdadeira riqueza da alma. Assim como os pastores encontram o Menino com Maria, sua mae, o peregrino, ao atravessar o limiar de sua própria pobreza, pode reconhecer simbolicamente a presença maternal daquela que lhe apresenta o Salvador.

Desse modo, a nudez de Odisseu pode ser contemplada como o início de uma peregrinação que ultrapassa a necessidade imediata de sobrevivência; o herói que perdeu seus bens e suas antigas seguranças encontra-se, simbolicamente, diante da possibilidade de reencontrar a própria alma; e, ao voltar-se para sua interioridade, descobre que ela não constitui o término do caminho, mas o lugar de uma presença que o transcende. Nesse horizonte, a Virgem Maria aparece como a figura maternal que conduz o homem ao Cristo que deseja habitar em seu coração, e o despojamento se torna, portanto, o princípio de uma descoberta: quando o homem já não possui aquilo que julgava ser tudo, pode finalmente abrir-se àquele que é o verdadeiro Tudo. Assim sendo, o náufrago que chega nu fisicamente, psicologicamente e espirualmente à praia não encontra apenas a possibilidade de ser socorrido; encontra, na leitura simbólica cristã, o início do caminho que o conduz de volta à própria alma e, por meio dela, ao encontro com Cristo.