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A Mulher Vestida de Aurora

26 de outubro de 2025

Entre as nuvens, o véu dela se abre, e eu não sei se o que vejo é uma rosa ou uma guerreira virgem e bela saída dos sonhos de Ariosto e de Tasso. A resposta não cabe em mim, e por isso não ouso perscrutar por muito tempo; permaneço no silêncio dos mártires diante da morte terrível, que diante da morte terrível guardam em suas almas o perfume de Seu véu — ou era de uma pétala que ocultava o semblante do Filho sagrado? Desse silêncio — ou do meu próprio — brota um cântico imaterial, tão suave que o ar se curva e os astros tremem. Já não sei se é cântico, rosa ou a bela heroína; só sei que em seu som habitam todos os amores daqueles que, em meio à morte, amaram com devoção. Há uma leveza que não pesa, uma revelação que se faz presença.

E, assim como não ouso olhar, também temo tocar. A pétala que me impede de ver seu rosto pulsa como se respirasse; sinto que dela emana um calor leve, quase humano, que me chama a ferir minha vontade falha para uma mais santa. Quero arrancá-la, desejoso de luz e consolo, mas não o faço; temo que o simples roçar de meus dedos profane a pureza de suas carnes florais. Então, do seu rosto — alvorada do Verbo — ouço uma voz que me atravessa: “Tolo! Como pretendes me sujar? Minha alma, que vive no êxtase eterno desde a concepção pelo Criador, não pode fenecer. Sou flor eterna, e sempre outra pétala florescerá, mesmo que todos os homens retirem uma para si; e isso é de minha vontade: Que todos a retirem; mas, por tristeza minha e de meu Filho, nem todos escolhem ver o que sempre cai da minha alma — pétalas de amor que descem sobre a terra como um orvalho de eternidade… e quase ninguém nota.

Ela desce, então, do firmamento, percebo que não apenas eu estou de joelhos, mas até as sombras à minha volta se ajoelham. De todo o seu corpo cândido caem claridades, pétalas de eternidade. Atrevo-me, enfim, e tomo a pétala que mais prendia meu olhar, aquela que me impedia de ver seu rosto, querendo descobrir se é rosa, ou bela guerreira virgem ou cântico em forma de mulher. E vejo enfim: o rosto pétreo de beleza eterna, o olhar feito oração, o sopro da boca, promessa de consolo. Nenhuma palavra é dita, mas tudo ao redor fala por ela; a criação inteira entoa sua vontade.

Vejo que em seu ventre ela carrega a chama e o vento — fogo que queima as vontades corruptas, sopro que recria a alma. Em seu colo, o céu inteiro parece dormir. Quem a contempla não enxerga um corpo, mas o instante antes da criação: luz pensada, gesto puro, misericórdia tomada em forma humana. 

E quando a observo em sua clareza, o tempo cessa. 

A dor, vencida, se faz joelho. 

O eterno se revela assim, num olhar de mulher que não exige nada além do arrependimento total e puro, como no gesto de entrega da criança que chora no regaço da mãe, num amor que apenas é.

PROFESSOR EDUARDO FARIA