Há uma narrativa sobre uma narrativa de uma luta entre Hércules e Aqueloo que guarda, talvez, algo que os gregos intuíram sem nomear por inteiro, uma verdade que o cristianismo viria a desenvolver de modo mais pleno. Obviamente não parece ter sido essa a intenção original dos poetas gregos e de toda a cultura grega, mas a tradição alegórica, tanto entre os filósofos antigos quanto entre os pensadores cristãos, sempre soube que certos símbolos carregam uma profundidade que escapa ao momento em que nasceram. Antes de prosseguir é imprescíndivel contextualizar o mito, a história trata sobre Aqueloo, o deus-rio capaz de assumir diversas formas que podia se transformar em um poderoso touro, e ele usou esse poder para disputar a mão de Dejanira contra Hércules. Após um intenso combate, Hércules quebrou um dos chifres do touro e o derrotou; desse chifre nasceu a cornucópia, símbolo da abundância e da fertilidade.
No entanto, Aqueloo não é simplesmente um touro, ele é um deus-rio, uma força da natureza. Como todo rio, pode irrigar campos e gerar vida, mas também pode transbordar e arrasar tudo à sua passagem. Dessa forma, o problema não está na água em si, mas na direção que ela recebe. O mesmo vale para os impulsos humanos: o desejo, a paixão, a agressividade, a força, a sexualidade, a ambição; nenhum desses é mau por natureza, inclusive podem se perverter em luxúria, violência, orgulho, egoísmo, mas podem igualmente se tornar amor, coragem, serviço, fecundidade.
Por isso, a luta entre Hércules e Aqueloo pode ser lida como uma imagem da batalha interior do homem. O touro representa a potência vital bruta que há na natureza humana, deixado completamente livre, ele pisoteia tudo ao redor; mas reprimi-lo também não é solução: um rio totalmente represado acumula uma força que, mais cedo ou mais tarde, rompe qualquer barreira e se transforma em inundação. Aquilo que é simplesmente sufocado não desaparece, na verdade volta de forma ainda mais destrutiva.
A verdadeira saída, portanto, não está em abandonar-se aos impulsos nem em destruí-los, mas em ordená-los. O touro solto destrói. O touro acorrentado enlouquece. O touro domado ara a terra, e é exatamente aqui que essa leitura encontra uma surpreendente ressonância com a Teologia do Corpo de São João Paulo II, pois o Papa recusa dois extremos: o hedonismo, que deixa o desejo correr sem rumo, e o maniqueísmo, que trata o corpo e seus impulsos como algo essencialmente corrompido. Sendo assim, a proposta cristã é uma terceira via, a redenção e a integração da natureza humana.
Em outras palavras, na linguagem da Teologia do Corpo, o Eros não é eliminado: ele é elevado ao fogo transformador do ágape, algo já sugerido por outros pensadores como Denis de Rougemont em seu O Amor e o Ocidente. Não apenas São João Paulo II, mas uma parcela da tradição acadêmica, a respeito desse assunto, concorda que a energia do desejo não desaparece. Dessa forma, retornando a João Paulo II, essa energia deveria aprender a expressar a verdade do amor, sendo assim, a pureza não é ausência de paixão, mas a integração da paixão dentro do amor verdadeiro. O santo não é alguém sem fogo, ao contrário, ele é alguém cujo fogo ilumina em vez de incendiar.
Sob essa perspectiva, o momento mais significativo do mito talvez não seja a derrota de Aqueloo, mas o destino de seu chifre. Hércules não destrói o touro por completo, pois do chifre arrancado nasce a cornucópia, o chifre da abundância de alimento e bebidas perene, ou seja, a mesma força que antes podia devastar se transforma em fonte eterna de alimento. O símbolo que representava poder bruto se converte em fecundidade perpétua.
Dessa forma, a sequência simbólica então se torna clara:
Instinto leva à destruição; instinto ordenado leva à fecundidade.
Ou, numa linguagem mais próxima da tradição cristã:
Natureza leva à graça que leva à caridade.
Essa lógica ecoa a formulação de São Tomás de Aquino: a graça não destrói a natureza, mas a aperfeiçoa. Cristo não vem para abolir aquilo que há de humano no homem, na verdade, ele vem para o redimir e o conduzir à sua plenitude.
Nesse sentido, Hércules pode ser visto como uma figura imperfeita daquilo que Cristo realiza de modo pleno. Inclusive alguns autores cristãos antigos já enxergavam no herói grego uma sombra distante do Redentor: o combatente dos monstros, o libertador, aquele que enfrenta forças caóticas para restaurar a ordem. Claro que Hércules não é Cristo, evidentemente, mas seu combate pode ser lido em uma chave teológica como um reflexo fragmentário da obra redentora que encontra sua plenitude no Evangelho.
Essa interpretação ganha ainda mais força quando posta ao lado da narrativa de Elias e da viúva de Sarepta em 1 Reis capítulo 17, pois ali também está o tema da abundância que nasce da escassez. Nessa narrativa, a viúva tem apenas um punhado de farinha e um pouco de azeite, claramente recursos insuficientes até para sua própria sobrevivência, mas quando há confiança na palavra de Deus e oferta do pouco que possui por parte da viúva, a farinha não se esgota e o azeite não falta perenemente.
Assim como a cornucópia surge do chifre arrancado de Aqueloo, a abundância surge do pouco que é entregue a Deus. Em ambos os casos, o símbolo aponta para a mesma verdade espiritual: aquilo que é oferecido e ordenado segundo um princípio superior torna-se fonte de vida para muitos. A cornucópia não produz riqueza apenas para Hércules, ela produz alimento para outros. A farinha da viúva não serve só a ela, pois ela alimenta também o profeta e sua casa, assim sendo, o verdadeiro milagre não é a multiplicação de recursos, mas a transformação da força, do desejo, da matéria e da própria existência humana em dom abundante.
Talvez seja por isso que rios, chifres de abundância e vasos inesgotáveis reaparecem repetidamente nas grandes tradições simbólicas da humanidade. Todos parecem apontar para a mesma realidade: a vida humana encontra sua plenitude não quando suas energias são lançadas sem direção, nem quando são sufocadas pelo medo, mas, sobretudo, quando são transfiguradas pelo amor. A força se torna serviço. O desejo se torna comunhão. O instinto se torna fecundidade. O rio deixa de ser inundação e passa a ser irrigação; e aquilo que antes era apenas potência natural se converte em fonte de vida nova.
PROFESSOR EDUARDO FARIA



