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A afabilidade em São Tomás de Aquino: fundamentos para a amorevolezza de São João Bosco

25 de julho de 2026

Ao que me parece, em toda a Suma Teológica, mais precisamente na II-II, q. 114, São Tomás de Aquino dedica uma breve, porém profunda, reflexão à virtude da afabilidade (affabilitas), que ele também denomina “amizade” em um sentido específico. Embora o tema possa parecer secundário diante de outras virtudes mais conhecidas, ele revela uma preocupação fundamental da ética tomista: como devemos nos comportar no convívio diário com as outras pessoas. Essa questão torna-se particularmente relevante no contexto do Colégio Magnificat, cuja proposta educativa encontra um de seus principais fundamentos na amorevolezza de São João Bosco. Afinal, para o santo educador, nao basta ensinar ou corrigir; é necessário que o educando se sinta verdadeiramente amado, respeitado e acolhido. A amorevolezza, um dos três pilares do Sistema Preventivo, ao lado da razão e da religião, consiste precisamente em uma presença educativa marcada pela proximidade, pela bondade e pela confiança, capaz de formar sem humilhar e corrigir sem romper os vínculos. Nesse sentido, nada mais oportuno do que mostrar que esse ideal pedagógico possui raízes mais profundas na tradição cristã, encontrando em São Tomás uma sólida fundamentação filosófica e moral por meio da virtude da afabilidade.

Dando prosseguimento, para São TTomás, a vida em sociedade não depende apenas do cumprimento das leis ou do respeito aos direitos alheios. Antes, exige também uma disposição interior que leve cada pessoa a tratar os outros com respeito, consideração e equilíbrio, e essa disposição é precisamente a afabilidade. Inicialmente, procurarei mostrar como o Aquinate a compreende enquanto virtude; em seguida, analisarei os dois vícios que lhe são opostos, a adulação e o litígio, frequentemente identificado com a grosseria, para, por fim, evidenciar como a afabilidade se apresenta como o ponto de equilíbrio que favorece a justiça e a boa convivência.

A afabilidade como virtude

Segundo São Tomás, toda virtude existe para ordenar algum aspecto da vida humana ao bem e, como o ser humano é naturalmente social, existe, por conseguinte, um bem próprio da convivência, que consiste em viver de modo harmonioso com os outros. Por isso, faz-se necessária uma virtude específica que regule nossas palavras, nossos gestos e nossas atitudes nas relações cotidianas. Desse modo, a afabilidade consiste justamente em saber tratar cada pessoa conforme as circunstâncias exigem. Em outras palavras, essa virtude nao se reduz à boa educação nem à cordialidade superficial; trata-se, antes, de uma disposição estável para agir com delicadeza, respeito e prudência, favorecendo uma convivência pacífica sem jamais abandonar a verdade.

Não por acaso, São João Bosco compreendia que o educador deveria conquistar o coração do jovem antes de pretender corrigir sua conduta. Em suas cartas e orientações aos salesianos, insiste que o aluno precisa perceber que é amado, pois somente assim acolherá a correção como expressão de cuidado e não como simples punição. Tal perspectiva se aproxima notavelmente da afabilidade descrita por São Tomás: em ambos os casos, o relacionamento interpessoal não se fundamenta na severidade ou na mera formalidade, mas em uma benevolência prudente, que procura sempre o verdadeiro bem do outro.

Entretanto, São Tomás distingue essa afabilidade da amizade propriamente dita, pois a amizade, em seu sentido pleno, nasce do amor e da afeição entre pessoas unidas por laços profundos. A afabilidade, por sua vez, manifesta-se sobretudo nas atitudes exteriores e pode ser praticada mesmo em relação a pessoas desconhecidas. Assim, é possível ser afável com todos, ainda que nao exista amizade íntima entre eles. Ainda assim, o Aquinate deixa claro que essa postura jamais pode ser confundida com a simples intenção de agradar. Daí decorre um dos aspectos mais importantes de sua reflexão: a afabilidade não consiste em agradar sempre. Sua finalidade é promover uma convivência verdadeiramente boa, e isso nem sempre coincide com proporcionar satisfação imediata.

Em determinadas situações, o verdadeiro bem do próximo exige uma correção, uma advertência ou até mesmo uma palavra firme. Nessas circunstâncias, causar certa tristeza não representa falta de afabilidade, mas justamente seu exercício mais autêntico. Corrigir um erro, impedir um pecado ou orientar alguém para um bem maior pode constituir um verdadeiro gesto de amizade. 

Essa compreensão aproxima ainda mais São Tomás da pedagogia de Dom Bosco, pois no Sistema Preventivo, a correção nunca deve nascer da irritação ou da humilhação pública, mas da confiança previamente construída entre educador e educando. Corrige-se porque se ama, e não apesar de amar, a firmeza, portanto, nao se opõe à amorevolezza; ao contrário, torna-se sua consequência natural quando está orientada ao crescimento integral da pessoa. Por essa razão, São Tomás utiliza o exemplo do apóstolo Paulo, que reconhece ter entristecido os cristãos de Corinto, mas o fez para conduzi-los ao arrependimento e à conversão:

“(…) Mesmo que a minha carta tenha causado tristeza a vocês, não me arrependo. É verdade que a princípio me arrependi, pois percebi que a minha carta os entristeceu, ainda que por pouco tempo.” (2Cor 7,8-9)

O critério da virtude, portanto, nao consiste em evitar qualquer desconforto, mas em procurar sempre o verdadeiro bem da pessoa.

Os vícios opostos

Todavia, como ocorre com diversas virtudes morais, a afabilidade ocupa uma posição de equilíbrio entre dois extremos. O primeiro deles é a adulação, caracterizada pelo excesso de complacência. Em termos mais simples, o adulador deseja agradar a qualquer custo, mesmo quando isso significa ocultar a verdade, elogiar quem não merece elogio ou incentivar comportamentos errados. Em situações mais graves, a adulação procura obter vantagens pessoais; em outras, nasce apenas do desejo desordenado de aceitação, frequentemente alimentado pela carência afetiva. Em ambos os casos, contudo, sacrifica-se a verdade para preservar uma falsa harmonia.

No extremo oposto encontra-se o litígio, nesse caso, o litigioso faz da contradição um hábito, pois, em vez de favorecer a convivência, procura constantemente contrariar, discutir, provocar conflitos ou entristecer os outros, atitude que, em linguagem corrente, pode ser identificada com a grosseria. Nao se trata da legítima discordância, muitas vezes necessária, mas da disposição permanente para criar oposição e romper a paz.

Entre esses dois desvios situa-se precisamente a afabilidade, ela não transforma a verdade em instrumento de agressao, como faz o litigioso, nem a sacrifica para conquistar aprovação, como faz o adulador; ao contrário, procura harmonizar sinceridade, respeito e prudência. Nesse sentido, ela representa uma síntese admirável entre firmeza e delicadeza, entre honestidade e benevolência.

A relação entre afabilidade e justiça

Por fim, Sao Tomás aproxima a afabilidade da virtude da justiça, pois, embora não imponha deveres jurídicos propriamente ditos, ela estabelece um dever moral de honestidade para com os outros. Em outras palavras, o ser humano possui a responsabilidade de tratar os demais de maneira respeitosa e, da mesma forma que a convivência depende da verdade, depende igualmente da cordialidade. Uma comunidade formada apenas por pessoas ríspidas, agressivas ou permanentemente desagradáveis dificilmente conseguirá preservar a paz social. Da mesma maneira, também fracassará uma comunidade em que seus membros vivam apenas para agradar uns aos outros ou para adular aqueles que ocupam posições de maior prestígio. Por isso, a afabilidade nao deve ser entendida como mera questão de etiqueta. Ela constitui uma verdadeira exigência da vida em comum e uma expressão concreta do respeito devido à dignidade de cada pessoa. Sob essa perspectiva, percebe-se que a própria amorevolezza de São João Bosco encontra aqui um sólido fundamento ético: amar educativamente não significa tolerar tudo nem evitar qualquer conflito, mas se relacionar de tal modo que a verdade seja sempre comunicada pela caridade e a correção seja sempre percebida como expressão de cuidado.

Enfim, a reflexão de São Tomás de Aquino sobre a afabilidade permanece extraordinariamente atual, sobretudo quando colocada em diálogo com a pedagogia salesiana. Em um contexto marcado pela polarização, pela agressividade verbal e, em muitos casos, pela busca incessante de aprovação, sua proposta oferece um caminho de equilíbrio capaz de iluminar tanto a convivência social quanto a prática educativa.

A virtude da afabilidade recorda que a convivência humana exige simultaneamente verdade e caridade. O homem virtuoso não procura agradar sempre, mas também não transforma a firmeza em pretexto para a grosseria. Sabe quando consolar, quando corrigir, quando elogiar e quando discordar, sempre orientado pelo bem do próximo. Desse modo, a afabilidade revela-se muito mais do que uma simples gentileza: constitui uma virtude que harmoniza as relações humanas, preserva a paz social e manifesta, nas pequenas ações do cotidiano, aquilo que São João Bosco chamava de amorevolezza, isto é, um amor que se faz sentir concretamente e que conduz o outro ao bem por meio da verdade vivida na caridade.

PROFESSOR EDUARDO FARIA